segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Somos tudo e nada.
Feitos e destruídos pelo tempo.
Oxidados pelos pensamentos que,
a toda a hora, respiramos,
com sofreguidão.

Somos recantos
e palavras.
Olhos.
Vontades.
Desejos.

Efémeros e eternos.
Palavras antagónicas.
Sentidos.
Um mar oculto,
envolto em espuma de mistérios.

Somos o segredo que alguém procura
e o Sol que alguém perdeu.
Os dias e as noites.
Isso.
E muito mais do que isso.

A sensação
ávida de liberdade
que o vento traz ao passar.

A escuridão e a luz.
A doença e a cura.
O amor e o ódio.
A coragem e o medo.
A curiosidade.
A busca 'não sei de quê'.

Sol e chuva.
Vida, morte e renascimento.
Um caminho.
Um fado.
Uma enigmática indefinição.

Tudo e nada.
E todos os nadas que há em tudo.
E assim vivemos:
a pensar que sabemos o que somos
sem nada saber!

Maria Vaz




3 comentários:

  1. «Somos o segredo que alguém procura
    e o Sol que alguém perdeu.» - belíssimos versos! senhores de uma profundidade que, em primeira e, por isso, descuidada análise, passará despercebida. Mas a sensibilidade dos mesmos, que tão bem reflecte a da autora, é inegável.
    Gostei bastante... Principalmente, de constatar a tua óptima adaptação ao género escolhido. Poderia ser em prosa, mas defendeste a escolha muitíssimo bem. Well done! (lol) ;)
    No meio de tanto 'ser' e não 'ser', ilusões e desencantos, deixo... uma sugestão de 'ser':

    SER


    Ser…
    Como a Água
    que tudo rega e reflecte;
    como a Terra,
    a mãe de todas as coisas,
    amplo terreno de cultivo;
    como o Vento
    que livre corre pelo espaço;
    como o Fogo
    que tudo consome
    apenas para que tudo
    possa de novo irromper.

    Ser…
    Como o caminho
    que até ao Infinito se prolonga;
    como o rouxinol
    que canta a sua Primavera;
    como a alva flor
    que suaviza a imagem
    de um rude recanto;
    como o Sol que refulge
    após o negrume desvanecer.

    Ser…
    completo como a Unidade;
    abundante como a Fonte;
    gentil como a folha
    que pende de ramos vários;
    sonhador como a semente
    que na neve soterrada sonha
    com a doçura dos seus frutos.

    Ser como o azeite:
    a substância que alumia
    a candeia do mundo.

    Ser assim e sempre assim:
    em cada sacro instante
    mais autêntico e profundo.



    (PBC - 03/01/2012).

    =)

    Beijos; fica bem.

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  2. Muito obrigada, pelas palavras e pelo teu poema, lindíssimo. A sensibilidade é evidente. Gostei especialmente do "sonhador como a semente/que na neve soterrada sonha /com a doçura dos seus frutos." É assim que me sinto nos dias mais cinzentos. E concordo plenamente com os últimos versos. A nossa missão na Terra passa pela autenticidade e pela profundidade com que pensamos e sentimos a vida.
    Beijo

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  3. Agora é a minha vez de agradecer: grato pelas palavras gentis que empregaste na apreciação do meu poema =)
    É claro que eu, como criador, gosto de todos aqueles que crio... Como pode um pai fazer distinção entre os filhos? Mas alguns, de facto, detêm um impacto mais profundo que outros... Não que sejam melhores; apenas a sua missão é que é diferente. E o SER é um desses casos... Um poema, também para mim, especial. Sabes como ele nasceu? Estava num jardim, aqui em Lisboa... À minha frente, uma oliveira. E, dela, pendia uma pequena azeitona. Ora... azeitona leva ao azeite, e azeite leva à candeia... A partir daí, foi só 'sentir' e, claro, lapidar. Das mais simples coisas nascem outras bem significativas...
    Esse verso que citas é igualmente o verso preferido de muitos leitores deste poema... Não és a primeira a sublinhá-lo. Mas ainda bem que, no meio de tanta palavra, a mais forte das intenções sobressai =)
    Para terminar, um voto: que te possas sempre recordar da semente na neve soterrada, quando os dias nascerem mais cinzentos. A Esperança é a bandeira do Homem.
    Fica bem ;)
    Beijos.

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