sábado, 27 de dezembro de 2014

 O 'conhecimento' meramente intelecto-racional ou empírico-intelectualizado não constitui (na minha opinião) a base das aprendizagens mais difíceis. Até porque a racionalização do conhecido faz com que tenhamos sempre uma perspectiva impositivamente dual, na medida em que a razão dá sempre azo a uma série de prós e contras, originando inequivocamente uma certa relativização e subtração de 'sentido'. E quando aponto isto não quero, de maneira nenhuma, tocar a moralidade de qualquer sentido, em termos convencionais ou de 'dever ser'. Pelo contrário. Acho que o homem deve aproveitar a aprendizagem cognoscitiva para aumentar a consciência de si próprio (e das suas, natas ou inatas, tendências comportamentais) e assim, após as experiências que o 'ser com os outros' lhe proporcionam, ser capaz de auto-análise...permitindo-se não apenas a aumentar a consciência como também, devido a isso, aumentar a sua liberdade de escolha (but free choice is not free will).
 Enfim, acho que só assim o ser de 'atomiza' em termos essenciais do meio que o rodeia. E o meio tem sempre aquelas ideias colectivas de 'dever ser', de 'sucesso', de 'padrão de vida familiar', de 'status': ideias que podem ser objetivos de manadas colectivas e sonhos alimentados pelos comportamentos de massas. Para mim essas imposições são vazias de conteúdo. Cada um, se não sabe, deveria saber que é melhor para si sem condicionamentos externos.
O "aprender a aprender" não se dirige ao conhecimento que vem nos livros (e que está ao alcance, se não dos mais inteligentes, dos mais esforçados), mas antes daquele conhecimento que a vida teima em nos ensinar pela via da experiência porque, ainda que a racionalizemos para a relativizar, com base na auto-análise conseguimos atingir a 'consciência do eu' (porque inconscientemente acredito que somos todos um 'tudo' em potencial). Só com base nessa consciência melhoramos o que somos e nos permitimos 'escolher' o melhor. E o melhor é sempre subjetivo. E por mais estranha que seja essa subjetividade, deve ser um campo afastado de moralismos, paternalismos e imposições externas, sob pena de deixar de ser uma manifestação da individualidade do 'eu' para se tornar numa mera adequação às convenções sociais coletivas, meramente formais. E o que importa, sem que daí advenha mal ao mundo, é a felicidade.



A natureza humana é quase desconhecida. Nós somos um mistério para nós mesmos! Mas isso não nos deve remeter a fugas de contentamento ou de 'encapotamento' da profundidade do 'eu': nada é linear. Então é mesmo bom aceitar o desconhecido, racionalizar apenas para perceber se é bom ou não (e o bom e o mau são conceitos pura e inquietantemente subjetivos). E nesse sentido, ser feliz é que é o 'certo'!! O medo é pura auto-limitação por não se saber saber o que vem a seguir, a necessidade saída de uma zona de conforto que sufoca e estagna. O medo está sempre ligado à inibição, à não atomização do 'eu' do consensualmente aceite e à intriga e à dúvida daquilo que hipoteticamente seria 'melhor'. 
A curiosidade é, por isso mesmo, o início do caminho enquanto percepção de que nos autolimitamos com medo de sonhar. E, muitas vezes, as pessoas sonham mas têm até medo de admitir a 'querida' concreticidade (sonhada) com base no medo de falhar ou em legítimos juízos consequencialistas. Por tudo isso, sou apologista de libertações internas e externas. A felicidade começa na sinceridade: não relativamente a terceiros, mas sobretudo, relativamente a nós próprios (no mais íntimo daquilo que somos)... porque a felicidade vem mesmo de dentro. E haja curiosidade, coragem e renovação da capacidade de sonhar. 
Sem isso, a vida tornar-se-ia irritantemente previsível, certa, determinísticamente apreensível, aborrecida: uma mera praxis existencial. 



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Os pragmáticos despedem-se de forma desmistificadamente indolor. Os idealistas colocam todo o seu sentimento no abraço que toca o abismo da ausência. Não é a dependência ou qualquer idealização de amor (ou do seu sentido). É tão somente a gratidão ou, antes de tudo, o egoismo auto-protector ante a ausência forçada.
A vida é mesmo conciliadora de paradoxos e toda a chegada implica uma partida. E deixando idealismos de lado, toda a partida nos enriquece e nos fortalece por dentro. Não perdemos nada: continuamos com o mesmo olhar sobre a realidade, com a mesma perspectiva... mas os horizontes alargam-se tanto que alcançam um ponto sem retorno. E o limite não é céu nenhum: é o brilho incandescente das estrelas que os nossos olhos, também impregnados de luz, vislumbram no meio das trevas.


domingo, 30 de novembro de 2014


A ousadia gritante de uma ironia que ecoa em mundos silenciosos, envoltos em sofismas e egos, que se avultam e se escondem em minudências ensurdecedoras.



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Ela olha para as minudências de tudo na expectativa de tropeçar em algo inarredavelmente brilhante ou disparatado: talvez seja uma apaixonada pelo poder de infinito que subjaz o caos. Ama a liberdade e as sensações de infinitude que a natureza proporciona numa simples brisa, que se amplia e vira rajada de vento com a profundidade de um qualquer sentido. Talvez seja predestinada à intensidade das pequenas coisas ou à possibilidade, quase impossibilitada, de reconciliar paradoxos. Tem uma paixão arrebatadora pelo mistério e pelo impossível. Sabe sem perceber e revolta-se sem querer. Ainda assim, sorri. E basta-lhe o sorriso, tão doce quanto irónico, para que deambule enquanto sonha acordada. E nenhuma intensidade combina com a fragilidade de um qualquer universo paralelo cor-de-rosa.




domingo, 26 de outubro de 2014

O cerne da questão nem é 'saber quem poderia amar a pessoa que escondes', mas antes a percepção de que tu é que tens que amar a pessoa que, por medo, escondes.
O medo é apenas uma limitação, tantas vezes inconsciente, que a mente gosta de criar com base no conhecido. E o problema é que o conhecido nem sempre é o 'melhor'... e o 'melhor' é uma mera subjetividade concreta e insusceptível de padronizações.
O amor não é personalisticamente dependente: é energia. Se fores amor, os outros reconhecerão essa 'beleza' anímica.
A visão tradicional de dependência remete as pessoas, também por medo, à perda da individualidade anímico-distintiva que gerou o surgimento do 'sentido'.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As pessoas que vivem de interpretações literais e de aparências não questionam os empirismos. Se alguém lhes diz que tem determinada característica vão interpretar os prós e contras da característica, mas jamais ousam pensar na sua veracidade (ainda que subjectiva) e dizer que aquilo é a maior barbaridade que já ouviram. 
Pois é, às vezes, definimo-nos mal...porque estamos sempre à procura de nós. Não somos nada daquelas palavras banalizadas que deixamos proferir no fluxo de energia que, mal ou bem, se desenvolve nas relações inter-pessoais: deixamo-nos impregnar de energias alheias ao sentir os outros sem limitações.  A definição do 'eu', além de ser uma limitação própria, abre caminhos a limitações e rótolos externos totalmente inverosímeis. Quem nunca se deixou levar, uma vez ou outra, na poluição sonora do 'achismo'?
Enfim, nunca tive paciência para quem confunde prenúncios de chuva com neblina matinal. 


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tenho-me inquietantemente questionado acerca da origem da vontade. Repetidas vezes tomamos o dúbio como óbvio e remetemos as respostas para a esfera da razão: uma razão pseudo iluminada que supostamente nos guia. Mas confesso que isso nunca me caiu bem. Não é que não concorde que a origem da vontade se encontre na razão. Não concordo é com a linearidade da aceitação nem com os olhares admiradamente espantados com a minha inquietação.
Num primeiro momento, julguei que a origem era a emoção. Afinal, todo o impulso inconsciente brota do que de mais misterioso há na alma humana: a sensibilidade emotiva. Depois, sei lá se por razão ou intuição, percebi que a origem da vontade é moldada pela consciência daquilo que queremos e, nesse sentido, seria uma espécie de emoção racionalizada pelo conhecido. 
Todavia, a origem ou o fundamento encontram-se num plano anterior à consciência: num plano de inesgotáveis possibilidades, de desejos (que podem até ser reprimidos pela 'consciência' que se adapta às convenções sociais), de caos. E isso lá me levou à conclusão de que a emoção receptiva, aliada à criatividade activa, originam uma razão desprendida que torna consciente o inconsciente, inovando e libertando o sujeito dos medos que o aprisionam ao conhecido. 
Assim, a origem da vontade precorre o caminho da receptividade emotiva inconsciente, que se cruza com a actividade criativa do sujeito, com base num 'modus operandi' racionalmente desprendido e inovador, liberto dos rígidos dictames sociais de 'dever ser'. Resumindo: a consciência da vontade tem origem na esfera dessa razão não meramente lógica, mas também intuitiva. Mas a mais pura origem, enquanto 'marco' nascente (ainda que inconsciente), encontra-se nas águas misteriosamente profundas das emoções humanas. 
* Claro está que os ditos racionalistas pseudo iluminados (e certamente infelizes) discordarão e dirão que o que importa é a lógica, a razão em sentido lato e desprovido de significâncias etimológicas, com base em paupérrimos juízos de prognose (porque meramente lógicos e agarrados aos medos que não deixam aflorar a intuição ou uma racionalidade inovadoramente superior), dizendo que tudo isto é coisa de 'loucos', com base na ideia de que só um louco se entregaria ao caos dionisíaco da natureza humana. 
Enfim, cada um sabe de si, haja liberdade (!) ... mas não há plenitude sem libertação. E, no fundo, depois da tomada de consciência da vontade (que é disso que falamos)... sobram duas saídas: uma fuga de negação ou a tal inovação criadora. E a coragem é a 'necessidade' que se interpõe. Só se atinge o equilíbrio da unicidade, que aniquila o falacioso dualismo da razão lógica, com coragem. Afinal, as convenções são apenas convenções (felizmente questionáveis e alteráveis) e o que os outros pensam são só isso mesmo: opiniões felizmente de escassa significância. Só é feliz quem ousa superar-se. E viva a loucura se estar vivo e decidir a vida em vez de a deixar passar com base em juízos externos ou internos de adequação. Independentemente da origem da vontade, o indivíduo é originalmente único: não formatemos essa originalidade. 



Falar para quê? Calados já dizemos tanto.
Às vezes, falar é poluição sonora.



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A amizade é uma religião: digo-o na certeza da minha concreticidade e sem pretensões egoísticas de abstracção. Digo-o porque aqueles que passaram pela minha vida deixaram sempre muito de si. Muito de bom e muito de mau. Mas sempre muito. Deixaram lições e uma espécie de sabedoria que a ilusão do tempo não apaga.
Hoje, quando sinto os bolsos cheios de utopias, os olhos a transbordar de sonhos e o coração ávido de essencialismos... penso na lógica 'economicista' aplicada à vida real; relativizo as circunstâncias; leio o caderninho que a Daniela me deu para começar a mudar o mundo; e...sinto-me renascida do que era e confiante naquilo que sou. O verbo 'ser' não precisa de transitoriedades limitadoras...mas sofre, sem dúvida, transformações.


"Liberdade para dentro da cabeça"

Ricardo Reis escreveu, "cumpramos o que somos", pressupondo que somos tudo. Como a maioria de nós só sabe o que é com base na escassa consciência que tem de si próprio, esquecendo o todo em prol da 'parte'... eu ousaria dizer: tenhamos loucura de aumentar o que somos. Só assim a existência atribui valor à essência, que a precede. Só assim nos vemos livres de determinismos. Só assim deixamos de nos limitar. Se o universo está em nós, para quê reduzirmo-nos a uma nebulosa?



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Acho irónica a critica que a maioria das pessoas faz à superficialidade. Ainda que vislumbre, nas entrelinhas de repetições que retiram conteúdo às palavras, traços de qualquer coisa verosímil.
O Homem é um ser social: precisa de 'ser com os outros' para perceber o 'ser-em-si mesmo'. E a vida ensina-nos a maioria das 'lições' por polaridade ou oposição.
Não critico a superficialidade do exterior, dos adornos, da vaidade. Critico a superficialidade que acaba com a veracidade dos 'pequenos nadas', das pequenas simplicidades que são tudo.
Não critico a superficialidade do corpo. Critico a superficialidade da alma.


sábado, 3 de maio de 2014


A relatividade do espaço e do tempo precipita-nos a importâncias desimportantes. 
A única importância está em ser: com brilhos e nebulosidades. 
Só podemos melhorar quando aceitamos o infinito que há em nós.
E o resto... são ilusões de uma normalidade que não nos pertence.
O homem, como "obra em execução" que é, vive entre a vontade e a necessidade.
E a verdade é que, quando o pano da ilusão cai, o ego e o medo diminuem. A coragem aflora. A zona de conforto desaparece. Uma realidade nova surge. Mesmo que ninguém a perceba. E ninguém precisa de perceber. A nossa mente, felizmente, tem esse poder.
Como diria Drummond de Andrade, "Que a felicidade não dependa do tempo, nem da paisagem, nem da sorte, nem do dinheiro. Que ela possa vir com toda a simplicidade, de dentro para fora, de cada um para todos" (...)"Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

Maria Vaz


terça-feira, 15 de abril de 2014



Ninguém sabe, nos dias que correm, o que é a loucura. 
Talvez não passe do mistério de SER.
Talvez nasça do silêncio onde nada, além de nós, influi.
É um pequeno nada que faz balançar o que achamos que somos.
E isso é só um vislumbre da essência que reside em nós.

No meio de encruzilhadas ontológicas;
De padronizações massificadas pela 'normalidade',
afirmar o que somos, sem medo, 
é uma loucura distintiva. 
Nada que brilha é 'normal'.

MV



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Talvez a verdade não seja mais do que a origem. Talvez a origem seja misteriosamente incognoscível. 
Talvez sejamos como que formigas perdidas num caos em que aquela origem impere.
Talvez sejamos seres aparentemente mutáveis, mas inarredavelmente imutáveis na essência.  Talvez. Talvez...
Os racionalistas que me perdoem...mas não creio que ela se baseie em pragmaticidades fácticas: está em tudo, muito embora a percepção dos factos esteja sempre dependente da interpretação de um ser humano imperfeito e egoísta. 
 É indubitável que o nosso modo de 'agir' diz muito mais sobre nós do que aquilo que gostaríamos... mas há, além disso, equações semi-conscientes que a razão recusa e inconsciências profundamente escondidas no fundo daquilo que somos que se avivam em ápices de imprevisibilidade. Somos o que achamos que somos e o que recusamos ser. O que amamos e o que odiamos. Somos tudo. Mas, acima de tudo, o que indefinidamente nos define é a réstia de liberdade em escolher o que queremos ser.  Ainda assim, não me parece que essa liberdade seja tamanha, como proclamam os existencialistas. 
Como 'essencialista' que sou (e não há nada mais essencial do que a verdade), entendo que só começamos a percebê-la nos outros quando a começamos a reconhecer em nós... e toda a verdade tem pedaços de céu e de obscuridade. 


"Nunca estive tão perto da verdade. 
Sinto-a contra mim, 
Sei que vou com ela. 

Tantas vezes falei negando sempre, 
esgotando todas as negações possíveis, 
conduzindo-as ao cerco da verdade, 
que hoje, côncavo tão côncavo, 

sou inteiramente liso interiormente, 
sou um aquário dos mares, 
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo. 

Sei que vou com ela, 
sinto-a contra mim, - 
nunca estive tão perto da verdade. "

Jorge de Sena, in 'Perseguição'



sexta-feira, 14 de março de 2014

Nestes dias em que o Sol parece duplicar a luz e o calor, apetece-me colocar uma mochila nas costas e percorrer o mundo; parece que qualquer coisa banal adquire uma certa luz, como se uma necessidade de explorar me assolasse o intelecto; como se os horizontes fossem infinitos e a vida do dia-a-dia parecesse demasiado redutora aos olhos do espírito; como se houvesse um 'mais e melhor' sempre por vir.

*Coisas de quem nasceu com Júpiter bem pertinho do ascendente. 
A vida é uma prova de expansão; de risco e aventura; de conhecimento e experiências... e de fé em algo que nos transcende.
A vida, para um Jupiteriano, "não tem limites". E é bom de ver que os limites físicos só existem quando a mente e o espírito se apequenam. 
E, claro, quando o corpo (físico) não viaja, vem sempre a vã filosofia: essa viagem do espírito, que é luz e tormento. 

E como diria Álvaro de Campos:

"Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio 
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma."




quarta-feira, 12 de março de 2014

Talvez a douta ignorância socrática não se remeta ao conhecimento.
De que vale um saber enciclopédico? Incompreensão?!
Talvez a razão seja a escuridão ao invés da luz.
Talvez a verdade seja o óbvio por detrás da aparência.
Felizes aqueles que sabem o que sentem com perfeita exactidão.
Felizes aqueles que se reconhecem e se libertam.

Maria Vaz








quarta-feira, 5 de março de 2014

É tão fácil perceber o que subjaz as palavras em gestos e olhares. 
E é tão fácil perceber o que queremos quando a cortina da verdade cai.
E tão engraçado como as pessoas se tentam adaptar sem serem o que realmente são.
É tão ridículo o medo da diferença existencial...e tão desnecessário!!
É tão mais fácil fingir o desapego e um modo de vida banal.
É tão difícil assumir a verdade quando ela parece ridícula aos olhos de todos.
É tão irritante vislumbrar a infelicidade em olhos alheios por falta de coragem.
E é reconfortante perceber que tudo muda em pouco tempo e que o tempo é apenas a medida da ilusão. 



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Caras sem expressões
Vidas sem sal e pimenta
Linguagens corporais óbvias...
Gestos sem emoções.

Magnetismos fracos
Inteligências escassas
Conversas cansativas
Olhos sem brilho.

Eternidades perdidas
em efemeridades ou
Significâncias insignificantes:
Nada!!

Maria Vaz







 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Dizer o quê?
As palavras, além dos actos,
seguem tramites de infidelidade:
deturpam o perceptível
na ausência da espontaneidade
das expressões.

MV


 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014


O pensamento é como o tempo.
Por isso, hoje, as ideias são chuvosas
Sinto o impacto de cada gota a cair na calçada
E o seu desvanecer na ausência de forma.
Encharco-me de juízos, afugentando-me de mim.
Finjo pensar… quando só me deixo guiar,
Sei lá por o quê ou quem.
Emudecida,
Ouço a melodia da precipitação
Causadora da insónia,
Ao mesmo tempo que escuto as sinfonias
(Desarmoniosamente harmónicas)
Provindas de buscadores de uma felicidade efémera.
E tal como a queda das gotas de água remexem a calçada
Existem ondas de emoções a revolver-me o ser.

Maria Vaz


 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

No meio de papeis, ideias, pensamentos, raciocínios lógicos e intuições. Sim, numa simbiose com um meio alagado de preocupações: eis um ambiente de estudo de uma Faculdade de Direito em plena época de exames. E eu, aqui, perdida entre mim e os outros - entre ideias e possibilidades, entre a acção e o resultado: o mundo do 'desvalor' -, na constituenda tentativa (impossível) de fundamentar soluções. 
Dou por mim a pensar naquilo que nos leva a criar determinada opinião e perco-me numa argumentação interna.
A meu ver, uma pessoa que tenha acesso ao conhecimento, que tenha vontade de o adquirir e que domine a oratória e a retórica pode, neste mundo onde inexistem factos puros e lineares (verdades cristalizadas para a eternidade), defender qualquer perspectiva, relativizar qualquer teoria aceite. 
Constato que a maioria opta por defender aquilo que interiorizou como verdade - aquilo que outra maioria defende, por comodismo ou facilitismo, não ousando ferir egos inflamados que se (auto)colocaram em pedestais. 
Penso mais um pouco... para chegar à conclusão que, excluindo esses que se orientam numa linha de funcionalismo sócio-profissional vantajoso, existe algo muito peculiar no ser humano que o encaminha num sentido 'decisório': algo que, inexplicavelmente, brota de nós para nos fazer adoptar determinada posição ao invés de qualquer outra; algo que nos impele a defender uma causa. E sinto-me perdida numa espécie de contemplação do real nas pequenas coisas. É incrível como um tema, como uma causa, um gosto, um gesto corporal... pode demonstrar tanto aquilo que somos. E fico fascinada com o óbvio que todos demonstram e, logo depois, escondem ou negam. A verdade rodeia-nos e nós espelhamo-la em algo, colorimo-la ou denegrimo-la: acho que não a queremos ver. 
E, depois disto - depois de perceber, mais uma vez, que somos a causa e o efeito de tudo o que nos acontece - volto à triste dialéctica entre o desvalor de acção e o desvalor de resultado em direito penal. Volto à dicotomia liberdade/responsabilidade. Volto ao meu 'pequeno nada' que me impele a defender algo que mais ninguém defende. 

Maria Vaz


sábado, 11 de janeiro de 2014

Há coisas que as palavras não dizem,
que o interior sente
e que a lógica não deixa decifrar.
Há vazios de qualquer coisa esvoaçante
ou de um 'pequeno nada' agregador.
Incontente, resmungo,
na ausência de palavras.
Envolto-me na imensidão 
daquele silêncio que tudo faz perceber.
Liberto-me de tudo aquilo que é encenado
para encontrar o real.
Deixo-me sentir 
as marés de energias alheias e
fico anestesiada de pensar no que,
de tão perto, anda longe.
Há devaneios que precipitam a ousadia
de trazer à tona a carga mística 
que a razão teima em refutar.
Há dois lados que se cruzam.
Dois opostos que se integram.
E contemplo,eu,
este paradoxo que há em mim.

Maria Vaz





quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 Como costuma dizer a minha avó, a maioria das pessoas só sabe o pai nosso (que, de resto, é a oração essencial do catolicismo) até o "venha a nós". 
Vão à missa recitar umas orações que só o são na forma, porque totalmente desprovidas de essência, de intenção e de compreensão. Triste e ironicamente, as orações viraram ladainhas, repetições, qualquer coisa que se diz sem pensar. E pior. A grande maioria das pessoas acha que merece o céu (o que quer que isso seja) apenas por 'rezar' sem rezar, sem querer melhorar, sem demonstrar cuidado com o próximo, sem agir de acordo com aquilo que diz. E sem o tentar. Contentam-se com palavras soltas.
A agravar o panorama, não sabem em que é que acreditam. Acham que sabem, mas não sabem. 
Como pode alguém ser de determinada religião sem a perceber, sem saber com exactidão (ou máxima aproximação) aquilo que defende ou aquilo que está na base da 'crença', que é sua 'contitio' fundamental??
Pensando, a título de exemplo, no credo, podem constatar-se imensas antinomias entre o que se diz, na aparente oração, e o que se diz quando se pergunta a alguém cristão em que é que acredita. Arriscaria dizer que mais de 90% das pessoas iria afirmar que tem devoções especiais por santos, numa espécie de negação suave do monotaísmo (relembrando os cultos politeístas presentes até às civilizações clássicas), e por Maria,  mãe de Jesus (só não sabem que o seu culto deriva do paganismo e de uma primitiva religião matriarcal). 
A maioria, quando fala de Deus, vê no seu raciocínio a imagem de Jesus (teologicamente, seu filho, à nossa imagem e semelhança), negando suavemente o monoteísmo, pela segunda vez, por falta de crença na essência intangível que visam adorar (como consta no primeiro mandamento). 
Outra lacuna tem lugar relativamente ao conceito de espírito santo (que leva à falta de capacidade, aparente, de explicação teológica da questão da "santíssima trindade", dando azo a inúmeras questões que o ocultismo fez questão de aprofundar). A generalidade das pessoas, além de não conseguir perceber o conceito, não acredita nessa 'energia espiritual', que existe em todos. Afinal, na eucaristia, diz-se que "ele está no meio de nós". E volta-se a dizer, no credo, que é o "senhor que dá vida". As pessoas não equacionam que essa 'vida' é apenas uma forma de criatividade. Não percebem que o dar "vida", aqui, - o fazer nascer - pode referir-se a uma obra intelectual e não apenas à geração de uma vida humana (afinal, já dizia Pessoa,"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"). Não é por nada que, antigamente, as agora "ciências sociais e humanas" eram apelidadas de "ciências do espírito". E esse culto do espírito e da sua evolução é conhecida desde as civilizações mais antigas, ainda que simbolizado pela adoração da serpente (v.g., na civilização Inca), ou, astrologicamente, relacionado com o culto do Sol, regente do signo de Leão, que governa os assuntos da casa V, de entre os quais se ressalta a criatividade. É ainda curioso que nos estudos simbólicos que envolvem a 'velha arte alquímica', que recorria a símbolos, o símbolo do ouro fosse o mesmo do que o símbolo astrológico do sol. Certamente os velhos alquimistas estavam empenhados na obtenção da elevação espiritual, que permitiria a eternidade, simbolizada pelo ouro. 
E, depois disto, ainda há mais uma negação: a da vida depois da morte, a da existência de um ciclo de reencarnações (à semelhança daquilo que propagam os budistas). Muito embora o credo seja unívoco e explícito, no seu elemento literal, quando diz "creio na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há-de vir", os crentes falaciosos desacreditam-na com um sorriso irónico, apologistas de uma ciência (aparente, porque não a conseguem acompanhar na sua total complexidade evolutiva), erigida a argumento insusceptível de impugnação: uma verdadeira cláusula geral concessiva de 'razão'. Falam como se essa ciência fosse Deus e como se essa visão doentia não tivesse sido destroçada com a queda do cientismo de Comnte. Preferem ridicularizar a crença, catalogá-la como impossibilidade, como devaneio ou quase loucura - algo proferido por alguém que não sabe nada de nada. Até porque, esses, normalmente sabem tudo acerca de tudo, com a profunda exactidão que a tal ciência, exclusivamente baseada num experimentalismo empírico, confere. 
Enfim. Até poderia considerar isso mais simbólico ou mais difícil de vislumbrar para a maioria das pessoas, que tem uma escassa 'educação para pensar', ainda que a memória lhes permita dizer sem saber. Contudo (e não obstante o supra mencionado), o que me choca mais no catolicismo é a falta de amor daqueles que se dizem 'praticantes'; a sua de falta de solidariedade; de querer melhorar nesse sentido (em um nível interior e exterior); a falta de vontade em colocar o egoísmo um pouco de lado. 
O amor, a solidariedade e o espírito de partilha constituíram as marcas inovadoras daquela religião, nos recônditos da sua origem. Foram essas ideias que levaram muita gente a abandonar outros cultos, outras crenças. Hoje, com tudo deturpado (por falta de literacia - apesar de estarmos na era da informação fácil -, questionamento e difusão da verdade subjacente à complexidade das palavras), a igreja católica está a desagregar-se, como estrutura, devido a um formalismo que, durante muitos séculos, esqueceu a sua substância, ou melhor, preferiu torná-la oculta em complexidades susceptíveis de um controlo de massas. Vendeu-se ao poder que a hierarquização lhe proporcionou: material e, consequentemente, de propagação de falsos moralismos de teleologia inexistente, de forma a controlar as pessoas pelo medo do pecado e do inferno, como se Deus fosse um julgador implacável e estivesse, tal qual Maat, com a balança à espera para fazer justiça. E o medo trouxe a involução das pessoas, o contentamento social excessivo, a falta de afirmação pessoal, levando à submissão geral em prol da palavra. 
As pessoas obstaram ao pensamento. Esqueceram-se da imperfeição da palavra e, sempre por medo, deixaram-se vencer, primeiro, por eles próprios e, depois, pelos outros. Perderam a noção do bem e do mal sem recurso a ensinamentos extrínsecos a si. Deixaram de saber, de conhecer. Passaram a acreditar em Deus como um 'ópio' para o tempo e para as vicissitudes que a vida vai impondo. Acreditavam (e continuam a acreditar) em algo que dizem como mero mecanismo de decoração. Mas não acreditam em si mesmos, não acreditam no principal - o amor -, naquilo que nos liga. Dizem que é apenas para os poetas e para os loucos. Submergem, actualmente, a solidariedade no hiper-individualismo mas querem ser felizes. Irónico, não é?

E eu (depois disto, socialmente 'condenada' por heresia) considero-me mais crente em Deus que muitos seres que se dizem ultra praticantes. O amor é universal. E, como monoteísta que sou, "creio em um só Deus", que é de todos. Um Deus universal, que está em tudo e todos, que tudo cria. Um Deus que nos impõe um rumo a percorrer desde o nascimento, ainda que susceptível de alteração (aquando da obtenção de uma máxima elevação). Um Deus nos conecta uns aos outros de forma matematicamente perfeita. Um Deus imaterial, que é o "espírito santo" (dos cristãos), o Sol ,de uns, e a serpente, de outros.Um 'Deus' que pode evoluir e atingir o ouro dos alquimistas, deixando o chumbo por intermédio do fogo, que é a energia criativa. Haja conhecimento e arte para nos anestesiar de uma sociedade embrutecida, envolta na densidade de espíritos dormentes. Para compreendê-lo basta não nos perdermos demasiado em filosofias excessivamente 'empiristas' e irmos estudar o dualismo cartesiano ou o racionalismo de Spinoza. E esse Deus (ou essência que tudo ordena) é formado pelas centelhas divinas que habitam tudo e todos, sendo que, há medida que uma e outra se aproximam ou há medida que vamos ampliando a nossa consciência, vamos sendo capazes de perceber a sua lógica de actuação através de símbolos, de sincronicidades ou de 'pequenos nadas' com que o universo nos vai presenteando.
Em termos sociais, parece-que que a sociedade mundializada actual (ainda que fique muito em débito para com a 'ideal' homogeneidade) deixou de ser vencida pelo medo para se tornar numa selva competitiva de egos que, lamentavelmente, se acham deuses em sentido muito diverso do proferido. Uma sociedade deixada à anomia (revivendo, actualmente, notas da tese de Durkheim), terá de rumar, necessariamente, no sentido do universalismo. 
Em termos individuais, o caminho é longo e sinuoso. Será necessário morrer e renascer, em termos psíquicos. Vencermo-nos a nós mesmos. E as tendências inatas, que fazem parte do que somos, são muito fortes, fazendo com que aquelas conexões matematicamente perfeitas de que vos falei acima raramente falhem. E as leis naturais que governam a matéria não serão as mesmas que governam o plano intangível (vejam-se as contradições existentes entre a física clássica e a mais recente física quântica). E o caminho, ainda que ocultado na perfeição dos símbolos, está presente nas civilizações humanas, desde sempre - é universal.

*A imagem abaixo refere-se à correspondência entre essa evolução espiritual, simbolizada pelo caduceu de Hermes, e a Árvore da Vida, estudada pelo misticismo Judaico. Por sinal, era a árvore que estava no meio do jardim do Éden (ao lado da árvore que permitia o conhecimento do bem e do mal, da qual Eva comeu o fruto proibido), e o seu fruto prometia a eternidade. 

Maria Vaz