quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 Como costuma dizer a minha avó, a maioria das pessoas só sabe o pai nosso (que, de resto, é a oração essencial do catolicismo) até o "venha a nós". 
Vão à missa recitar umas orações que só o são na forma, porque totalmente desprovidas de essência, de intenção e de compreensão. Triste e ironicamente, as orações viraram ladainhas, repetições, qualquer coisa que se diz sem pensar. E pior. A grande maioria das pessoas acha que merece o céu (o que quer que isso seja) apenas por 'rezar' sem rezar, sem querer melhorar, sem demonstrar cuidado com o próximo, sem agir de acordo com aquilo que diz. E sem o tentar. Contentam-se com palavras soltas.
A agravar o panorama, não sabem em que é que acreditam. Acham que sabem, mas não sabem. 
Como pode alguém ser de determinada religião sem a perceber, sem saber com exactidão (ou máxima aproximação) aquilo que defende ou aquilo que está na base da 'crença', que é sua 'contitio' fundamental??
Pensando, a título de exemplo, no credo, podem constatar-se imensas antinomias entre o que se diz, na aparente oração, e o que se diz quando se pergunta a alguém cristão em que é que acredita. Arriscaria dizer que mais de 90% das pessoas iria afirmar que tem devoções especiais por santos, numa espécie de negação suave do monotaísmo (relembrando os cultos politeístas presentes até às civilizações clássicas), e por Maria,  mãe de Jesus (só não sabem que o seu culto deriva do paganismo e de uma primitiva religião matriarcal). 
A maioria, quando fala de Deus, vê no seu raciocínio a imagem de Jesus (teologicamente, seu filho, à nossa imagem e semelhança), negando suavemente o monoteísmo, pela segunda vez, por falta de crença na essência intangível que visam adorar (como consta no primeiro mandamento). 
Outra lacuna tem lugar relativamente ao conceito de espírito santo (que leva à falta de capacidade, aparente, de explicação teológica da questão da "santíssima trindade", dando azo a inúmeras questões que o ocultismo fez questão de aprofundar). A generalidade das pessoas, além de não conseguir perceber o conceito, não acredita nessa 'energia espiritual', que existe em todos. Afinal, na eucaristia, diz-se que "ele está no meio de nós". E volta-se a dizer, no credo, que é o "senhor que dá vida". As pessoas não equacionam que essa 'vida' é apenas uma forma de criatividade. Não percebem que o dar "vida", aqui, - o fazer nascer - pode referir-se a uma obra intelectual e não apenas à geração de uma vida humana (afinal, já dizia Pessoa,"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"). Não é por nada que, antigamente, as agora "ciências sociais e humanas" eram apelidadas de "ciências do espírito". E esse culto do espírito e da sua evolução é conhecida desde as civilizações mais antigas, ainda que simbolizado pela adoração da serpente (v.g., na civilização Inca), ou, astrologicamente, relacionado com o culto do Sol, regente do signo de Leão, que governa os assuntos da casa V, de entre os quais se ressalta a criatividade. É ainda curioso que nos estudos simbólicos que envolvem a 'velha arte alquímica', que recorria a símbolos, o símbolo do ouro fosse o mesmo do que o símbolo astrológico do sol. Certamente os velhos alquimistas estavam empenhados na obtenção da elevação espiritual, que permitiria a eternidade, simbolizada pelo ouro. 
E, depois disto, ainda há mais uma negação: a da vida depois da morte, a da existência de um ciclo de reencarnações (à semelhança daquilo que propagam os budistas). Muito embora o credo seja unívoco e explícito, no seu elemento literal, quando diz "creio na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há-de vir", os crentes falaciosos desacreditam-na com um sorriso irónico, apologistas de uma ciência (aparente, porque não a conseguem acompanhar na sua total complexidade evolutiva), erigida a argumento insusceptível de impugnação: uma verdadeira cláusula geral concessiva de 'razão'. Falam como se essa ciência fosse Deus e como se essa visão doentia não tivesse sido destroçada com a queda do cientismo de Comnte. Preferem ridicularizar a crença, catalogá-la como impossibilidade, como devaneio ou quase loucura - algo proferido por alguém que não sabe nada de nada. Até porque, esses, normalmente sabem tudo acerca de tudo, com a profunda exactidão que a tal ciência, exclusivamente baseada num experimentalismo empírico, confere. 
Enfim. Até poderia considerar isso mais simbólico ou mais difícil de vislumbrar para a maioria das pessoas, que tem uma escassa 'educação para pensar', ainda que a memória lhes permita dizer sem saber. Contudo (e não obstante o supra mencionado), o que me choca mais no catolicismo é a falta de amor daqueles que se dizem 'praticantes'; a sua de falta de solidariedade; de querer melhorar nesse sentido (em um nível interior e exterior); a falta de vontade em colocar o egoísmo um pouco de lado. 
O amor, a solidariedade e o espírito de partilha constituíram as marcas inovadoras daquela religião, nos recônditos da sua origem. Foram essas ideias que levaram muita gente a abandonar outros cultos, outras crenças. Hoje, com tudo deturpado (por falta de literacia - apesar de estarmos na era da informação fácil -, questionamento e difusão da verdade subjacente à complexidade das palavras), a igreja católica está a desagregar-se, como estrutura, devido a um formalismo que, durante muitos séculos, esqueceu a sua substância, ou melhor, preferiu torná-la oculta em complexidades susceptíveis de um controlo de massas. Vendeu-se ao poder que a hierarquização lhe proporcionou: material e, consequentemente, de propagação de falsos moralismos de teleologia inexistente, de forma a controlar as pessoas pelo medo do pecado e do inferno, como se Deus fosse um julgador implacável e estivesse, tal qual Maat, com a balança à espera para fazer justiça. E o medo trouxe a involução das pessoas, o contentamento social excessivo, a falta de afirmação pessoal, levando à submissão geral em prol da palavra. 
As pessoas obstaram ao pensamento. Esqueceram-se da imperfeição da palavra e, sempre por medo, deixaram-se vencer, primeiro, por eles próprios e, depois, pelos outros. Perderam a noção do bem e do mal sem recurso a ensinamentos extrínsecos a si. Deixaram de saber, de conhecer. Passaram a acreditar em Deus como um 'ópio' para o tempo e para as vicissitudes que a vida vai impondo. Acreditavam (e continuam a acreditar) em algo que dizem como mero mecanismo de decoração. Mas não acreditam em si mesmos, não acreditam no principal - o amor -, naquilo que nos liga. Dizem que é apenas para os poetas e para os loucos. Submergem, actualmente, a solidariedade no hiper-individualismo mas querem ser felizes. Irónico, não é?

E eu (depois disto, socialmente 'condenada' por heresia) considero-me mais crente em Deus que muitos seres que se dizem ultra praticantes. O amor é universal. E, como monoteísta que sou, "creio em um só Deus", que é de todos. Um Deus universal, que está em tudo e todos, que tudo cria. Um Deus que nos impõe um rumo a percorrer desde o nascimento, ainda que susceptível de alteração (aquando da obtenção de uma máxima elevação). Um Deus nos conecta uns aos outros de forma matematicamente perfeita. Um Deus imaterial, que é o "espírito santo" (dos cristãos), o Sol ,de uns, e a serpente, de outros.Um 'Deus' que pode evoluir e atingir o ouro dos alquimistas, deixando o chumbo por intermédio do fogo, que é a energia criativa. Haja conhecimento e arte para nos anestesiar de uma sociedade embrutecida, envolta na densidade de espíritos dormentes. Para compreendê-lo basta não nos perdermos demasiado em filosofias excessivamente 'empiristas' e irmos estudar o dualismo cartesiano ou o racionalismo de Spinoza. E esse Deus (ou essência que tudo ordena) é formado pelas centelhas divinas que habitam tudo e todos, sendo que, há medida que uma e outra se aproximam ou há medida que vamos ampliando a nossa consciência, vamos sendo capazes de perceber a sua lógica de actuação através de símbolos, de sincronicidades ou de 'pequenos nadas' com que o universo nos vai presenteando.
Em termos sociais, parece-que que a sociedade mundializada actual (ainda que fique muito em débito para com a 'ideal' homogeneidade) deixou de ser vencida pelo medo para se tornar numa selva competitiva de egos que, lamentavelmente, se acham deuses em sentido muito diverso do proferido. Uma sociedade deixada à anomia (revivendo, actualmente, notas da tese de Durkheim), terá de rumar, necessariamente, no sentido do universalismo. 
Em termos individuais, o caminho é longo e sinuoso. Será necessário morrer e renascer, em termos psíquicos. Vencermo-nos a nós mesmos. E as tendências inatas, que fazem parte do que somos, são muito fortes, fazendo com que aquelas conexões matematicamente perfeitas de que vos falei acima raramente falhem. E as leis naturais que governam a matéria não serão as mesmas que governam o plano intangível (vejam-se as contradições existentes entre a física clássica e a mais recente física quântica). E o caminho, ainda que ocultado na perfeição dos símbolos, está presente nas civilizações humanas, desde sempre - é universal.

*A imagem abaixo refere-se à correspondência entre essa evolução espiritual, simbolizada pelo caduceu de Hermes, e a Árvore da Vida, estudada pelo misticismo Judaico. Por sinal, era a árvore que estava no meio do jardim do Éden (ao lado da árvore que permitia o conhecimento do bem e do mal, da qual Eva comeu o fruto proibido), e o seu fruto prometia a eternidade. 

Maria Vaz



3 comentários:

  1. Pode ser uma heresia social, mas é uma heresia deveras eloquente... E heresias assim merecem o meu aplauso. Ovelha azul... Sempre ;)
    É preciso agitar consciências... Águas estagnadas não matam a sede. O teu texto é de uma grande inocência (no bom sentido, isto é, genuíno e puro) e coragem, também... Os meus parabéns.
    Já sabes que para mim é um gosto poder desfrutar da oportunidade de te ler... Ainda para mais porque tens uns estilo que instiga o debate. Como se o texto fosse um diálogo esboçado na mesa de um café... Digo-o como elogio, entende isso. Por vezes, nem escrevo tudo o que queria escrever sob pena de tornar os comentários exageradamente extensos... Por aqui vês o benéfico efeito desse estilo... Por isso, tento resumir-me sempre ao essencial.
    Seja como for, gostei bastante... Mais uma vez. E concordo com inúmeras ideias que foste deixando pelo caminho das frases... Outros aspectos necessitariam de outra abordagem e de comentários, lá está, exageradamente extensos... ;) Mesmo assim, ainda que partindo de bases distintas, muitas ideias tuas encontram semelhanças com algumas que partilhei daqueles textos que te enviei, se deles estás lembrada... Apenas sob uma forma diferente, talvez mais metaforizada (o lado de poeta sempre fala mais alto...) Mas, mais importante que isso, é a eloquência e a coragem do teu texto. Continua! Estarei aqui para te ler... =)
    Beijos.

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  2. Deves ser das poucas pessoas que lê aquilo que escrevo. Algumas ficam apavoradas com a dimensão, porque só lêem o que é curto e de fácil compreensão, outras (infelizmente) não percebem aquilo que pretendo transmitir, no seu todo. Talvez achem que se trate de algo tão voltado para a 'ladainha' como as orações rezadas só na aparência.

    Temo que a desigualdade social se veja prorrogada (muito além das consequências dos efeitos da má distribuição da riqueza), principalmente, pelo desnível de consciências existente. Às vezes, penso mesmo que talvez nós, ocidentais, sejamos demasiado preconceituosos com as 'castas' orientais, pelo motivo supra citado, muito embora seja apologista da evolução para todos, mormente, através da efectivação do direito à educação: só assim se cria uma via para que o livre arbítrio possa prevalecer sobre o determinismo (uma vez que só alterando a 'causa' se obterão 'efeitos' diversos), rumo a uma homogeneidade consciencial ou a um projecto de 'felicidade colectiva'.
    Se continuarmos a seguir este formalismo desprovido de essência e a sociedade permanecer imersa entre o medo de uns (os 'mais fracos', porque detentores de menos recursos económicos) e o egoísmo ambiciosamente desmesurado de outros (daqueles que detêm o poder proporcionado pelo dinheiro e pela capacidade de controlo que ele proporciona, fomentando o medo e o 'primitivismo', naqueles outros), entramos numa involução pessoal e social da qual será, mais tarde, muito difícil de sair.
    Acho que já é hora de questionar e de começar a ter coragem, não só de "agitar consciências", como também de denunciar 'pequenos grandes males' entranhados. Só identificando os problemas reais poderemos encontrar soluções eficientes num mundo tão díspar em termos evolutivos.
    Enfim, talvez tenha mesmo uma certa ingenuidade em escrever o que escrevo, da forma como escrevo. Arrisco-me a ouvir o que não quero e a ter de me calar em 'discussões/debates', porque não vale a pena expor ideias a quem não é a elas receptivo, a quem rejeita tudo que toque no estabelecido como dogma, mesmo que lhes faltem as palavras para argumentar.

    E concordo contigo. Sinto-me, cada vez mais, uma "ovelha azul" no meio de um rebanho de ovelhas brancas. E fico feliz quando reparo que, de vez em quando, lá vai surgindo uma ou outra ovelha azul. Estou lembrada dos teus textos, claro. As metáforas, muitas vezes, iluminam compreensões que a clareza, no seu estado mais depurado, não permite alcançar.

    Mais uma vez, muito obrigada Pedro! :)

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  3. Ora... Estou certo que chegas a muitos outros leitores. Talvez nem todos decidam deixar comentários ou ler tudo até ao fim (como dizes, e bem, os textos longos "assustam"), mas sempre entram em contacto com a tua esfera de pensamento. Apesar de nem cultivar muito o meu blogue, sei que, pela dimensão dos textos, perco sempre alguns leitores... É natural.
    A palavra 'ingenuidade' talvez não tenha sido por mim bem empregue... Tentei falar como forma positiva e elogiosa, não o reverso. Isso porque notei uma linha sincera e pura no teu discorrer. Se aquele que crê em coisas oriundas de sonhos é ingénuo, então eu te digo que assumidamente sou ingénuo! Pois acredito em utopias. E não creio que seja tolice... Mas esperança. Por isso, não quis denegrir o teu texto ou intenções com tal palavra quando a escrevi. Se sentires que o fiz, apresento as minhas desculpas. De qualquer forma, espero que a tua voz nunca cesse nem a exposição das tuas ideias mingue, mesmo que 'escutes o que não queres escutar'. É um risco, sim, mas passível de ser banalizado a meu ver. Claro que a receptividade de quem escuta é deveras crucial, mas cessando a tua voz todas as hipóteses de crescimento ou consciencialização de outrem cessam de igual forma. Escrevendo, falando, divulgando: todos são meios de plantares a tuas sementes. E essa será a tua responsabilidade. O medrar das mesmas dependerá sempre de quem as receber. Partilho apenas, é claro, a minha visão =)
    Ser 'ovelha azul' também tem os seus revezes... Entre eles, a solidão. Mas não creio que isso seja justificação ou escape. É um espinho que amiúde se faz sentir, mas no término do caminho encontra-se o veludo das pétalas da rosa. Em suma, apenas quero dizer que compreendo o que dizes.
    Persevera em teus propósitos e assume a singular individualidade que te assiste. Já o disse antes e repito: o mundo necessita de luzes como a tua. Mesmo que 'aparentemente' poucos te ouçam ou leiam.
    Nada há a agradecer. Sempre é um gosto visitar este espaço e ler o teu trabalho que a cada dia vou apreciando com maior afinco.
    Beijos.


    PS: gostei muito da forma como no comentário expuseste certos casos e os analisaste... é um conteúdo bem interessante que, direccionado, daria um óptimo recheio para um livro sobre o tema. Provavelmente, um ensaio de intenções sociais. Tudo isso regado, claro, com o teu melhor estilo introspectivo e pleno de vocabulário bem maturado. Uma ideia a pensar... não? ;)
    Beijos.

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