quarta-feira, 9 de abril de 2014

Talvez a verdade não seja mais do que a origem. Talvez a origem seja misteriosamente incognoscível. 
Talvez sejamos como que formigas perdidas num caos em que aquela origem impere.
Talvez sejamos seres aparentemente mutáveis, mas inarredavelmente imutáveis na essência.  Talvez. Talvez...
Os racionalistas que me perdoem...mas não creio que ela se baseie em pragmaticidades fácticas: está em tudo, muito embora a percepção dos factos esteja sempre dependente da interpretação de um ser humano imperfeito e egoísta. 
 É indubitável que o nosso modo de 'agir' diz muito mais sobre nós do que aquilo que gostaríamos... mas há, além disso, equações semi-conscientes que a razão recusa e inconsciências profundamente escondidas no fundo daquilo que somos que se avivam em ápices de imprevisibilidade. Somos o que achamos que somos e o que recusamos ser. O que amamos e o que odiamos. Somos tudo. Mas, acima de tudo, o que indefinidamente nos define é a réstia de liberdade em escolher o que queremos ser.  Ainda assim, não me parece que essa liberdade seja tamanha, como proclamam os existencialistas. 
Como 'essencialista' que sou (e não há nada mais essencial do que a verdade), entendo que só começamos a percebê-la nos outros quando a começamos a reconhecer em nós... e toda a verdade tem pedaços de céu e de obscuridade. 


"Nunca estive tão perto da verdade. 
Sinto-a contra mim, 
Sei que vou com ela. 

Tantas vezes falei negando sempre, 
esgotando todas as negações possíveis, 
conduzindo-as ao cerco da verdade, 
que hoje, côncavo tão côncavo, 

sou inteiramente liso interiormente, 
sou um aquário dos mares, 
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo. 

Sei que vou com ela, 
sinto-a contra mim, - 
nunca estive tão perto da verdade. "

Jorge de Sena, in 'Perseguição'



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