sábado, 27 de dezembro de 2014

A natureza humana é quase desconhecida. Nós somos um mistério para nós mesmos! Mas isso não nos deve remeter a fugas de contentamento ou de 'encapotamento' da profundidade do 'eu': nada é linear. Então é mesmo bom aceitar o desconhecido, racionalizar apenas para perceber se é bom ou não (e o bom e o mau são conceitos pura e inquietantemente subjetivos). E nesse sentido, ser feliz é que é o 'certo'!! O medo é pura auto-limitação por não se saber saber o que vem a seguir, a necessidade saída de uma zona de conforto que sufoca e estagna. O medo está sempre ligado à inibição, à não atomização do 'eu' do consensualmente aceite e à intriga e à dúvida daquilo que hipoteticamente seria 'melhor'. 
A curiosidade é, por isso mesmo, o início do caminho enquanto percepção de que nos autolimitamos com medo de sonhar. E, muitas vezes, as pessoas sonham mas têm até medo de admitir a 'querida' concreticidade (sonhada) com base no medo de falhar ou em legítimos juízos consequencialistas. Por tudo isso, sou apologista de libertações internas e externas. A felicidade começa na sinceridade: não relativamente a terceiros, mas sobretudo, relativamente a nós próprios (no mais íntimo daquilo que somos)... porque a felicidade vem mesmo de dentro. E haja curiosidade, coragem e renovação da capacidade de sonhar. 
Sem isso, a vida tornar-se-ia irritantemente previsível, certa, determinísticamente apreensível, aborrecida: uma mera praxis existencial. 



3 comentários:

  1. Concordo! E o facto mais paradoxal do caso reside no famigerado medo do desconhecido, principalmente naqueles que tanto anseiam por uma nova manhã. Ora, é precisamente graças à impermanência da vida material que a esperança é possível, já que tudo, em irredutível parcela, se resume à sucessão de diversos ciclos. Logo, nenhum dia é eterno; mas noite alguma durará para sempre. É claro que também importa a vontade do ser em sair da noite em que dormita. Mas, como dizia, tememos tanto o desconhecido, logo ele que é o portador da 'boa-nova' que por vezes tanto ansiamos. O paradoxo é esse: ansiamos pela saída, mas quando a temos diante de nós... recuamos. Tememos aquilo que não vemos ou controlarmos... Mas, como dizes, se soubermos abraçar o desconhecido, com todas as suas potencialidades, e se isso permanecer em consonância com o nosso mais íntimo ser, estaremos enfim a aceitar o eterno fluir de todas as coisas, a unirmo-nos ao rio que a vida é - lenta e suavemente trilhando o seu caminho rumo ao oceano que o (nos) espera.
    Gostei de ler.
    Beijos.

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  2. O desconhecido é o eterno adamastor que, ao melindrar o sonho, o impossibilita. E o 'além' da zona de conforto mexe sempre com a superação dos nossos limites e das nossas reduções: coisas que a mente gosta de criar para nos convencer de uma estagnação possível. Como disseste, e muito bem, é "graças à impermanência da vida material que a esperança é possível".
    Nem é necessário querer equacionar o infinito para sair da noite em que se dormita ou da caverna de sombras a que nos aprisionamos, por medo: sempre por medo. O desconhecido pode ser a nossa libertação interna, ainda que nos encontremos num período ensolarado. O problema, como já disse, é o medo. E o medo é uma criação nossa: autoboicote puro. Para a mente não há limites. Mas depois vêm as formatações do meio (familiares, grupais, associativas, sociais) e parece que nos esquecemos da nossa vontade. De lutar pela realização da nossa vontade em prol de juízos de dever ser ou de adequação, restrição ou castração pura.
    Pois é, talvez a vontade de que falo seja essa tua formulação do "mais íntimo ser". E, claro está, só poderia concordar contigo quando dizes que isso constituiria uma aceitação do "eterno fluir de todas as coisas".
    Como diria o Ricardo Reis (o erudito que racionaliza): "cumpramos o que somos. nada mais nos é dado".

    * Agradeço-te, Pedro, pela percepção das minhas palavras e pela amabilidade de sempre. Confesso que estes temas que tocam uma certa ideia de compreensão supra material são sempre difíceis de debater com a generalidade das pessoas, que se entrega às formatações de que falo acima. Normalmente, sinto-me incompreendida: sinto que apesar das pessoas poderem gostar do que lêem não percebem aquilo que quis transmitir na essência. Percebi que percebeste. Obrigada. Beijo :)

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  3. É sempre um prazer, Maria, passar por este teu cantinho de reflexões e desabafos. Pelo conteúdo exposto, pelo modo de argumentação, pelas ideias exploradas, pelo debate sadio que proporciona... Enfim, pelo simples gosto de poder 'falar no mesmo alfabeto' (ou parecido, quanto muito). Compreendo, assim, essa 'incompreensão pouco pontual' de que falas... talvez mais do que poderei deixar transparecer. Por isso, creio, lidas as palavras mais recentes, mais do que agradecimentos sobejarão os sorrisos... Pois são sinceros e, nada dizendo, tudo dizem =)
    Espero que estejas bem. Continuação de óptimas inspirações. E, claro, a maior das felicidades para as tuas etapas futuras. Continuarei a aguardar por novas publicações... ;-)
    Beijos.

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