quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Há verdades que morrem para deixar viver insignificâncias.
Quando olho o céu ou fito o mar;
Quando atinjo o infinito
de um qualquer horizonte onde me perdi;
Sei que sou uma insignificância pensante:
um quase nada energético.
Não sou mais do que poeira estelar
e isso alegra-me.

Os pensamentos vagueiam em nós. Agarramo-los e deixamo-los ir, porque não dá para escrever tudo numa página de papel. O que pensei ao por do sol foi uma iluminação esquecida na vicissitude mental articulada em uma espécie de hierarquia de preocupações ou desejos. Por segundos ou minutos tocamos o infinito e deixamo-lo ir para nos resignarmos à pequena particularidade que costumamos ser. No fundo, a nossa mente é viciada, não no plano concreto mas no fértil mundo das abstrações. Atraímos padrões semelhantes, vivemos situações semelhantes: há sempre esse desejo de fuga e de arte, de querer dar cor ao incolor e perfumar o inodoro. A paixão pela vida faz-nos exalar qualquer coisa inominada, geradora de reações de amor ou de ódio por parte de terceiros. Parece que a bondade gera uma inilidível presunção de burrice. No fundo, não é que não se perceba a realidade:  ela aflora nas percepções nítidas da razão. Contudo, há a irrelevância e toda a felicidade gratuita que daí advém. Convém recordar as 'iluminações' para não esperar surpresas e armazenar a sabedoria que nenhum livro contém.

By Mary

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amo-vos a todos
mas vou com as aves
as ondas,
a doçura do olhares que cruzo
ou com o que me fascina no desconhecido.
Quero o mistério eterno por escrever.
Vou com a multidão,
preciso de solidão:
com a natureza, os livros,
os pensamentos que me transcendem.
Não vivo a antítese da liberdade.
Vou andando por um caminho transformado.
Perdoem-me se não me multiplico
ou se, cabeça no ar, nada digo:
estão todos em mim! 

domingo, 22 de novembro de 2015

Clamores cruzados percorrem pensamentos
guardados em gavetas de uma alma complexa.
Guardamos minudências como quem guarda alfinetes
e, depois, sentimos as nossas próprias alfinetadas
pelas preocupações inventadas por uma mente criativa.



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Devaneando em sorrir
sem nem saber porquê
para quê retrair 
a beleza que não se vê?

Um suspiro no escuro
por vezes leva à sensação
de que o mais inseguro
ideal ou inquietação
é apenas uma paragem, um muro,
um entrave à fruição.

De que nos vale o controlo,
o domínio ou a solidão?
O que somos brilha no escuro
no mistério além da compreensão. 

E caminhamos em paralelo
Em encruzilhadas existenciais: 
Um dia encontraremos o elo
Que nos liga como pontos cardeais. 


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Não sei se foram os olhos ou a inadvertência da razão. Foi o brilho que reconheci sem, aparentemente, conhecer. Foram as boas lembranças que a memória reavivou. Foi o que ainda não sei, mas que descobrirei, porque a realidade cuida de se ampliar à medida em que nos deixamos embeber em nós. Somos a resposta, no singular. Por mais que o passado fascine, somos uma eterna história por escrever. Esquecer-me-ei de ti, como de todos, mas rápido nos (re)encontraremos. Os que se querem bem estão destinados a um reencontro, por mais que demore. No fundo, somos eternas pedras em lapidação, que só se aquietam com a mesma tonalidade musical. E isso só é (re)cognoscível no momento em que a exteriorização, biunivocamente perceptível, ocorre. Talvez seja por isso que dou as mãos à transparência e que tento fugir das dissonâncias: um si bemol será sempre um si bemol...e meio tom pode colocar em cheque a melodia harmoniosa que se quer.

Alma Salgueiro

sábado, 17 de outubro de 2015

Anoiteceu como todos os dias, mas viram ali o que sempre lhes fora invisível: o miscigenar das cores quentes com o azul frio, em que o alaranjado se dilui, deixando laivos rosa sobre a linha do horizonte. Naquele dia, como em tantos outros, a beleza saía deles pelos olhos, tropeçando em sorrisos equilibrados, tímidos, pelo medo de dizer o indizível, nessas horas em que a razão complica e atormenta a simplicidade das evidências.
Interpretando os silêncios dançantes entre os movimentos suaves, serenos, ansiosos ante a compulsão convergente dos corpos; entre os brilhos que os olhares refletiam; entre a pele dos dedos, que se enlaçaram sem perceberem. O que quer que tenha sido aquilo, qual milagre, sintonia física e anímica, grito unívoco, pulsão descontraída, desapossada...palavra não inventada, eles souberam que era amor. E que o amor estava neles. Sabiam que não necessitavam um do outro, que seguiriam com carinho. Sabiam, no fundo, que era melhor deixarem de se ver: o amor amplificado, viciado, leva à paixão. E eles, sem saber, sentiam que seria um ponto sem retorno. Foi por isso que se contentaram com a eternidade daquele pôr do sol.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Brisa
Aroma
Beleza
Redoma
Surpresa
Paixão
Natureza
Alucinação
Tudo vida:
matéria-prima da sensação.
E a razão?
Essa dorme divertida.
Não necessita de afirmação.
Pode ficar bem escondida
e soltar-se na introversão.
Sabem que mais?
Deixemos a existência estendida
ao sol da imaginação.
Ela não será esquecida
e não atormentará o coração.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Irrompe no tempo
o descalabro incompreensível
dos olhares que trocamos.
Doem as palavras soltas
e corroem as prendidas.
O amor, cheio de graciosidade,
torna as amarguras esquecidas:
memórias sem validade.
E que me diga o tempo o indizível,
em verdades impiedosas.
As palavras, ante o infinito, são desastrosas.
O horizonte amplia placidamente o intraduzível
e, no absoluto, as almas vagueiam, caridosas. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Quero o que não vi
A beleza, em si!
O que desperta sentimento
na rosa da cor que não há:
o que irrompe num tremor lento
a cada respiração que dá.
O que quero nunca vi,
deve andar por aí,
mas não se eternizará.
O eterno adoece
o que não se compadece
com o ideal que nascerá.

Maria Vaz

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O irresoluto transbordou
e a alma inundou-se de intransmissibilidades,
desnudando-se num segundo.
A música entranhou-se nos poros
como a voz melodiosa que suaviza pensamentos.
As cores resplandeciam beleza
e os sentidos exaltaram-se num agora sem fim.
Em êxtase, perdi-me ali.
Em mim.

Alma Salgueiro

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Deixei ir a nuvem negra
que nos prendia.
Deixei-a na imensidão de um céu azul
de lembranças por escrever.
Deixei as trevas que me fizeste sentir:
a memória só te traz, de vez em quando, num sorriso.
Mas o sorriso é meu,
ninguém o arranca,
nem nos dias em que a chuva
traz pensamentos mais desassossegados.
Ninguém o arranca de mim,
porque até o desassossego é mera impaciência
com o instante que ainda não foi,
na previsibilidade certeira do que será.
Enquanto isso,
encosto-me ao sol das novidades e
perco-me noutros vôos.
Quando me vires voar, como quem anda,
sorri apenas.
Sorri, mas não me procures.
Deixa-me sobrevoar outros mares,
em que não haja tempestades;
Deixa-me fundir no tempo
em que a felicidade extravase gratidão.
Deixa-me ser criança,
na espontaneidade que não perderei.
Já deixei, já me desapeguei.
Agora deixa-me:
deixa de me aparecer quando me julgo noutra onda,
de um mar de tsunamis adormecidos,
em que a tua lembrança traz o calor gelado de ausência.
Deixei-te ir quando coloquei intensidade nas palavras que devia ter calado,
mas a poesia não dá espaço a ausência de sentidos.
Milímetros tornam-se metros de profundidade.
E isto não se quer melancólico:
é um devaneio ensolarado numa chuva de percepções.
Só voltei aqui porque estou 'além':
além de ti, além de mim, além do que foi e do que será.
Estou a rir-me de mim.
A rir-me da fuga em que me coloquei
e dos excessos e das renúncias
que me levaram a perecer na verdade do que senti.
O resto foram irritações com provocações alheias.
A razão morrera por instantes,
mas rápido voltara
com a espontaneidade
e o com o optimismo que jamais morrerá em mim.
Talvez a tua nuvem ainda paire sob o meu subconsciente,
mas a razão voltou e desprendeu o nó que dei sem querer.
E agora já consigo rir-me de mim,
de todas as racionalidades e emoções sufocantes,
e da eterna benção e maldição de sentir abismos em cócegas existenciais.
Um sorriso matou uma razão pretensamente imortal.
Agora ela voltou e afastou a nuvem que pairou sobre o meu sol.
Soltei-me e voei.
Se me vires passar, podes sorrir-me, mas deixa-me ir.
Deixa-me conhecer outros céus.
Seria uma questão de tempo até me entediar com a tua previsibilidade imprevisível, que me fascinou.
E outras impossibilidades se insurgirão apetecíveis.
Outros sorrisos gerarão brilho no meu olhar.
Deixa-me ir, que não tenho feitio para o meio termo da existência.
Se te lembrares de mim, podes sorrir, mas jamais me procures.
Há outras aventuras e outros céus. Outros horizontes. Outras irracionalidades que me prenderão.
Talvez, no fundo, tenhas sido apenas um alvo circunstancial
em que tentei extravasar o amor que há em mim.
Alguém que, talvez sem querer, me tocou.

Alma Salgueiro

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Por rebeldia
ou por mania.
Por inquietação
ou curiosidade.
Por consolação
ou claridade.
Por contradição
ou verdade.
Talvez por libertação.
Sorrio
e não ligo
ao que está escrito na mão.
E sorrio novamente
em profunda indagação.
De repente,
simplesmente,
o Leminski tem razão.






segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Deambulando com o jeito impreciso
de quem sai sem saber bem o que quer,
encontrando em cada esquina o tremor de um sorriso:
existirá um 'flirt' inconsciente de mulher?
O silêncio sempre esconde o sucedido
no interior de uma psique que ri sem querer
na imensidão de novidades escondido,
nessa contemplação de quem ama viver.
E a tolerância sobrepõe-se à rispidez
do que em minudências o todo se desgasta.
O que importa é a sensatez
(ou a loucura) consciente de dar um basta:
de olhar como quem vê
de sentir como quem lê.
O sol cai e a lua ilumina
o caminho de alguém que, sem querer, nos contamina.
E continuemos a deambular pelas ruas
Como quem dança mentalmente num mundo de sete luas.






quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Entreolharam-se como quem antevê a certeza da univocidade centrípeta com que as as almas se esbatem e se encolhem ou expandem por aí. Entreolharam-se na adequabilidade racional ante os essencialismos perceptíveis de energias tendencialmente imutáveis. Sem dominadores ou dominados, fizeram com que a tolerância prevalecesse sobre a reprovabilidade de uma moral que morreu. Não se perderam em relativismos nem se encantaram com as certezas imperativamente imperfeitas de uma razão sempre incompleta. Foram "além do bem e do mal", mas esqueceram-se que existe uma causa e efeito numa ética do absoluto em que o tempo é relativo. Talvez o olhar tenha despoletado uma qualquer lembrança vaga: eram companheiros de viagem sem saber. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A culpa é do sorriso que, cativante, se torna cativo.
Talvez seja do suspiro, que ausente se torna presente.
A culpa, sei lá, é do ar que faz fluir a novidade:
É da beleza e da leveza da liberdade!
Se te sorrir, não te iludas: sorrio até ao vento que derruba.
E logo me volto a levantar,
ainda que a impossibilidade não me deixe ficar.
A culpa é da teimosia...
de colorir o mundo por mania.
Talvez haja pouca culpa e muito ser
nas paixões que fazem renascer.
E os sorrisos sempre despontam
Tornando cativos outros olhares que se aprontam.




domingo, 28 de junho de 2015

"Procuro não ter planos para a vida para não atrapalhar os planos que a vida possa ter para mim."

 *Quem escreveu essa genialidade foi Agostinho da Silva. Claro que não quis, com isto, dizer que não devemos ter planos. Claro que devemos (com toda a tolerabilidade impositiva do verbo 'dever)! Isto do direito 'juridicializa' a linguagem dos pensamentos. Não é que a vida possa ter planos para mim: a plenitude vive-se entre um Zeus que se mostra, um Cronos que se realiza e um Hades que, negando-se, se liberta na luz daquilo que todos vêem, acabando por se transformar.
Assim sendo, sem querer ser intelectual 'snob', o melhor (e só é melhor para mim) é projetar metas, estabelecendo 'regras mínimas', sem querer controlar a vida, sem querer apequenar o mundo e a mente. Sem 'harmonizações' colectivas em nome de qualquer tipo de adaptabilidade que nos descaracterize.
No meio disso, que venha o caos enriquecedor que, descurando uma ordem em linha recta, nos faça ter a ávida sensação, no dia em que Maat realizar o julgamento final, de que a vida valeu a pena. Sem egoísmos ou falta de sensibilidade, que têm os que deambulam na univocidade de um caminho sem curvas, em que 1 + 1 sempre originará um 2 linear. E, claro está, se o que importa é realizar o 'self', que se tente tudo aquilo que a vontade nos impelir: que o 'I want' não se deixe castrar pelo medo de falhar. Se isso acontecer, pensemos além de nós, além do ego e da realidade do momento: percebamos o que nos envolve e, depois, tentemos novamente aquilo que a realidade, já ampliada, despertou novamente desejo no ser. E eu sei que os budistas dizem que deveríamos eliminar o desejo - os estoicos também apregoavam a eliminação do prazer para evitar a dor -, para sermos felizes unicamente pelo 'I am'. 
Bem, eu aprecio as teorias budistas e as que dissertam os caminhos pseudo-tântricos que passam os abismos de Daat, mas só é feliz quem não se deixa frustrar. Admito que, um dia destes - se tiver sorte e for realizando as minhas vontades -, perceba que, afinal, os budistas tinham razão na sua sabedoria e embarque, tal qual o Siddartha de Hesse, num retorno a um estado de contemplação original. Até lá, continuarei a pensar que a transcendência da matéria deve basear-se em algum domínio sobre um Cronos que, não se frustrando, se realiza.
Deste modo, a vida é um confronto de egos e vontades (declaradas ou inconscientes) em que cada um estabelece batalhas de hidras entre um Zeus que se quer agigantar, um Hades que intranquiliza, por perceber os submundos dos que nos rodeiam, e um Cronos que, na sua rigidez, gosta de castrar a criatividade que nos distingue (Uranus). Que Zeus leve a melhor e, se possível, que traga Apolo e Uranus à equação de luz, sem descurar minimamente um Cronos de passos lentos e seguros.
Os herméticos da antiguidade tinham sete leis. A primeira era:
"O todo é mente. O universo é mental."
Vamos ampliar o nosso? E porque não torná-lo único, ao mesmo tempo que pretendamos inovar ou melhorar as regras do 'status quo', sem desrespeitar as hierarquias do tempo, com elegância? 
Depois, se não gostarmos, que venham as renúncias neptunianas e as transcendências em prol da fusão com o todo. A renúncia do ego só vale quando ele existe e, já forte, se aniquila por vontade. Sempre por vontade. O resto são teorias bonitas que nos fazem frustrar pelo romantismo envolvente de manipuladoras histórias da carochinha. 


sábado, 27 de junho de 2015

"- É por essa janela que costuma voar?
Joana Ofélia sorriu.
- Qualquer janela serve. Foi Demérita que me ensinou. Basta olharmos através dos vidros, e somos mais livres do que pássaros. As pessoas podem continuar a ver-nos, mas só nós sabemos que há muito que ali não estamos, que voámos com as aves, com o vento, com a poeira da estrada, com a água da chuva."
Alice Vieira, in "Se Perguntarem Por Mim Digam Que Voei"


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Entre a loucura e uma realidade monocromática, que vigorem os sorrisos e o amor à vida, ao que tem brilho e ao que nos faz brilhar também.
A loucura só é ofensa aos olhos daqueles que, castrados, se inibem pelo 'dever ser' e, por falta de coragem, apontam o dedo aos que, ousados, se deleitam no que são.
A vida para ser intensa tem que me pertencer em liberdade. De mim para mim. O resto deve ser escravatura.

"Eles dizem que é impossível encontrar o amor
Sem perder a razão
Mas pra quem tem pensamento forte
O impossível é só questão de opinião
E disso os loucos sabem
Só os loucos sabem"



terça-feira, 16 de junho de 2015

O ponto cai no i com a exuberância
de um por do sol incandescente.
O i, já com o ponto,
articula-se com o pragmatismo
da formas além da essência:
A vida que deflui
obedecendo a uma racionalidade
mexida por aquilo que a consciência desconhece;
O ardor de um tropeço
que se desvanece e logo se eclipsa
ante um mesmo sol, que agora nasce;
O caos obedece à ordem 
e logo se dissipa, por rebeldia,
 (re)originando-se;
Os interesses dos 'is' em que os pontos caíram,
calculados pelo medo
com que as almas deambulam,
face à incerteza e ao risco de 'ser'.
Não serão os pontos
restos degradados 
de uma razão perecível?


Maria Vaz


quarta-feira, 3 de junho de 2015

 No fundo, não quero saber dos julgadores morais da bíblia de cabeceira, nem dos intelectuais que subvertem a razão, nem me vou agarrar a podridão nenhuma. Gosto daquilo que de bom realça nas pessoas, gosto dos sorrisos, da espontaneidade e do gosto pela aventura, que só tem quem é livre de espírito. O resto ensina-me a crescer e a desprender-me, naquilo que pode parecer até uma renuncia de mim. Confesso que acho que todo o poeta tem em si esse 'je ne sais quoi' de renúncia do eu: é daí que surge a sensibilidade que nos permite sentir os outros. Por mais que os outros se fechem no egoísmo, nos circunstancialismos, nas materialidades. A felicidade não se vende, os sorrisos não se compram, a consonância de energia não se cria artificialmente: isso tranquiliza-me! 






terça-feira, 12 de maio de 2015

Antes de, sequer, se falar em liberdade de expressão, dever-se-ia falar na liberdade de pensamento. E deveria falar-se disso, porque vivemos num tempo em que se vendem verdades e se impingem absurdos com a mesma frequência com que respiramos. E o pior é que as pessoas se acomodam e aderem por osmose a essas verdades inverosímeis, que castram outras hipóteses e outros horizontes. Inquieta-me a proibição de o ser humano não poder expressar-se de forma livre, mas sufoca-me a castração de ideias, com base em conceitos socialmente construídos. E a beleza disto tudo está no facto de que aquilo que eu penso é só aquilo que eu penso: isso tranquiliza-me. Não obstante, não me impinjam razões desargumentadas (ou com base em falácias formais), porque vou ser educada e discordar, nem fechem a mente àquilo que não conhecem: o desconhecido assusta qualquer um, mas a razão - além dos dogmatismos que deveriam ter repousado na 'idade das trevas' - está em permanente construção. E toda a racionalidade tem as suas fragilidades. Por isso é que sabe bem fugir da razão e lidar com aqueles que buscam outros horizontes, em que a sabedoria ultrapassa o conhecimento e em que a imaginação cria soluções além do conhecido. No fundo, o que quis dizer é que defendo um mundo em que a liberdade comece no pensamento, em que cada um tenha uma voz. E que digam, podem fazê-lo, que isto é uma ridicularidade: a crítica melhora os argumentos e avulta percepções; a crítica é a constituenda tentativa (aludindo a Popper), no caminho da falsificação. E, depois, venha a capacidade desenvencilhadora de quem defende para corroborar. Mas que seja porque 'é' e não por vaidade ou orgulho intelectual. No fundo, andam, por aí, com base em racionalidades, tantas vezes obsoletas, a tentar convencer os outros de que aquilo que defendem faz sentido. No fundo, é tudo uma espécie de avultação do ego em nome da razão. E as mentes conflituam, sem saber, e, porque querem aceitação, detestam pontos de resistência. E isto vale tanto para a academia como para a vida quotidiana: há conflitos de vontades a cada segundo que passa. Vontades e mentes: sem aquela liberdade de pensamento, só há caminhos de submissão em linha recta. 


sábado, 2 de maio de 2015

Olhares vivamente coloridos
Alguma alegria inexplicável
Imaginações impregnadas de beleza
Percepções que se agudizam na intuição de pequenos nadas
Conjecturas de um espírito em busca da superação. 

Maria Vaz

Olhei para trás
e mergulhei
nos pensamentos metamórficos
que deixei morrer
na ausência
de palavras.

Alma Salgueiro




Pedaços de silêncio ambíguo
que deixam no ar nuances de mistério.
Percepções risonhas
que se conectam numa sintonia de irreverência.
Dois olhares que se quedam telepaticamente
descortinando o desejo.
Verdades desprendidas
pelo traço oblíquo dos gestos que se insinuam.
Danças que são levezas eufemizantes da razão.
O toque biunívoco, que duas mãos sentem,
imersas num tubilhão caótico de impulsos
que a aparência disfarça.
A subtileza...
Sempre a subtileza...
De duas imaginações que se cruzam e intuem:
As almas livres conhecem-se pela espontaneidade dos gestos
E pelo brilho sorridente do olhar.

Alma Salgueiro

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A procura de nós, através de um oásis que alguém nos traga, gera poesia.
E as perspectivas daquilo que será o oásis dependem sempre das lentes que colocamos para ver o que somos e que, por isso mesmo, acabam por ser as vestes com que nos afirmamos perante os outros. Depois, perdemo-nos em falácias e achamos que precisamos de algo, que normalmente é um oposto disso (dizem que os opostos se tocam). Enfim.
O meu 'eu' mais rebelde rejeita os 'oásis' e as dependências. Rejeita as representações afirmativas. Rejeita até a razão em excesso, que me leva a perceber essas coisas caricatas do 'ser'. E é por tudo isso, ainda que pareça paradoxal, que me vejo, sem querer, a seguir a regra da falácia. De certa forma, acho que é difícil afastar o padrão: é que o padrão existe porque queremos, porque nos entregamos a ele, porque achamos que assim somos mais felizes e espontâneos. E queremo-lo, tantas vezes, sem o perceber. Quando, de sobressalto, o percebemos...percebemos que - ainda que o que quer que sejamos seja uma essência 'estática' - o que varia é a percepção, tão dinâmica, que se agiganta à medida que vamos percebendo nos outros pedaços de nós. E normalmente é assim: vemos algo nosso em alguém e rejubilamos, como se essa pessoa fosse a 'tal'. Amamo-nos e queremos que nos amem: o egoismo em que reside a verdade. Os nossos olhos são espelhos e os nossos sentidos captam apenas aquilo que, vindo de dentro, nos pareça similar a nós. O nosso mundo interior é infinitamente exteriorizável e infindavelmente fértil.
É por isso que andamos por aí, todos perdidos, em busca de nós; todos insatisfeitos; todos em busca de um pedaço de céu anil; todos embebidos em fantasias e ambições de que, depois de conseguir o objectivo profissional x ou y seremos pessoas realizadas; todos convencidos de que, depois de encontrar a 'pessoa certa, seremos felizes.
Lamento decepcionar os mais idealistas - idealismo em que já me perdi para me encontrar -, a pessoa certa és tu: de ti para ti. Sem mais. A partir daí, qualquer pessoa de que gostes além da razão (e além de qualquer semelhança racional ou racionalizável) - porque os sentidos tocam um mundo interno em que a razão é ignorante -, vai ser a pessoa certa. Porque tudo depende da vontade e da liberdade de cada um. O resto são desculpas de quem, perdido, não se encontra e continua numa busca 'sei lá de quê'. Vai apreciando em uma ou outra pessoa um 'je ne sais quoi', que lhe pertence, porque não vamos muito além daquilo que o nosso olhar, viciado, nos quer mostrar.
E isto não é nada de auto-ajuda: é um mero desabafo de quem sorriu enquanto lia Herberto, que era um homem além do banal. Pensei: claro que, como todo o poeta, andou na procura. É sempre assim. Procuramos sempre algo: algo luminoso; algo diferente, que nos faça viver além da razão; algo que nunca encontramos, porque somos nós ou a utopia que nos funde com o infinito. E isso não significa solidão. Inevitavelmente, significa a exigência de sentido naquilo que vai 'ficando', em liberdade: todo aquele que se procura se sente sufocado com aqueles que vivem na necessidade de exigir um 'para sempre' em linha recta. Mas o que quer que vá 'ficando', que seja por inteiro enquanto dura, enquanto a vontade for recíproca e o sentido superar 1000 razões. Só assim um poeta toca, ainda que por instantes, a beleza infinita de sentir além da razão.
Procurar-te-ei até te encontrar
Mesmo que só te encontre em corpos
Onde tu não estás
Herberto Helder



terça-feira, 28 de abril de 2015

Ou não.
Por um meio que não formate o que nos individualiza.
Existe um 'eu' além do 'outro'. E dizer isto não equivale a defender qualquer tipo de individualismo: individuação e individualismo são coisas inequivocamente distintas, do mesmo modo que o processo de individuação não afasta necessariamente qualquer tipo de solidariedade (ou fraternidade).
Todavia, a individuação pede tolerância a um mundo de diferenças, porque toda a gente tem 'algo a mais'. E a forma como vemos o 'algo a mais' altera o vislumbre antitético do problema/solução: se vislumbrarmos esse 'algo a mais' sob uma perspectiva sociológica, ou o integramos naquilo que é valorizado pelas tendências subjectivas (talvez com traços socialmente construídos ou subconscientemente incutidos) dos elementos de determinado aglomerado de pessoas, esse algo a mais não existe por si só porque depende de um assentimento favorável do grupo; se o vislumbrarmos sob um ponto de vista puramente subjectivo (acreditando que existe um processo de individuação do indivíduo face ao dominantemente aceite como 'bom' ou 'ideal'), esse 'algo a mais' existe de forma autónoma e, na medida em que não depende da aceitação dos outros, será valorizado pelo próprio sujeito (que se sente bem consigo mesmo) e por outras pessoas (que se identifiquem ou apreciem aquele 'algo a mais'). A apreciação pelas outras pessoas pode levar ao surgimento de um desejo de proximidade que pode (ou não) evoluir e originar um novo grupo.
Assim, nem tudo o que existe no 'eu' é socialmente construído, do mesmo modo que nem tudo o que é subjetivamente desejável é o dominantemente (ou socialmente) aceite. E se não for assim, deixo de acreditar em conceitos como 'vontade autónoma' ou 'liberdade'.

* E danem-se as teorizações racionais acerca daquilo que existe independentemente das palavras que se usem para lhe atribuir significância: as significâncias não têm de navegar em marés de palavras, sob pena de vaguearmos em formalismos desgastadores.
Além disso, o que tem piada é quebrar as teorias (sérias e tantas vezes ridículas) que tentam explicar o inexplicável e impingem às pessoas impossibilidades de todo o tipo: ideologias castradoras.
Não conheço raios de liberdade que se prendam a impossibilidades existenciais.
E quero lá saber se defender a liberdade é mainstream. ;)



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Em torno do real...

Olha, Pedro Belo Clara (isto seria a minha responta ao teu comentário sobre a subjetividade/objectividade do real) ...


Gosto de ver o real como uma subjetividade em construção, condicionada pelos hipotéticos condicionamentos natos e inatos, que nos marcam além da vontade. Penso que existem factores endógenos e exógenos que acredito serem dificilmente afastáveis. Mas, lá está, como inegável idealista que sou, gosto de ver o real como uma folha em branco em que a vontade expele cores além do arco-iris. Afinal, expandir a mente é o que nos permite ir além, daí que me fascine a filosofia e a criatividade, a arte, as viagens e o desconhecido sempre por descobrir (essa vontade de ir além e de quebrar restrições que aprisionam a mente). 
Assim sendo, talvez essa expansão da mente nos leve no caminho da perfeição. Não de uma perfeição chata, aborrecida ou pragmática de um ideal de 'ser'. Nada disso. Talvez isso apenas nos liberte de amarras a que, por ingenuidade ontológica, gostamos de nos prender. Sejamos sem restrições. Acredito que só assim atingiríamos uma perfeição que nos colocaria acima de qualquer contrariedade do mundo material e nos aproximaria de uma ideia de omnisciência apoteótica, que nos ligaria ao todo, na crença da existência de um inconsciente colectivo que liga mundividências individuais (talvez seja aí o plano em que um Deus qualquer, supra-religioso, lance os dados e ligue vidas como quem resolve uma equação matemática, em que jogam constantes e variáveis). 
Sei lá. O real, no meu entendimento, acaba por ser subjectivo, apesar de um certo objectivismo daquilo que objetivamente deva ser o tal 'absoluto' (com uma boa dose husserliana, em contraponto com Kant, no que toca à fenomenologia do conhecimento). É por isso que entendo que a verdade objectiva seja aquele todo perfectivo e de quase inatingível omnisciência. Depois, claro está, o subjetivismo desenvolve-se em várias escalas ou patamares existenciais de consciência. E a vida em sociedade dá-se, no meu entendimento, nessa discrepância de consciência que, consequentemente, gera distintos níveis de liberdade. Enfim. Este é um tema que me fascina. As opiniões são muito minhas e não quero fazer disto uma qualquer verdade universal, afinal faz parte da minha mundividência subjectiva que, convenhamos, anda longe do 'absoluto'. Todavia, confesso, gostaria imenso de um dia (daqui a uns anos, quando a bagagem científica e cultural me permitir) escrever sobre isto, estabelecendo uma conexão com aquilo que seria a minha própria teoria sobre a origem da vontade. 
Com base em algumas das premissas enunciadas anteriormente, acredito que não é difícil prever acontecimentos, porque acabam por derivar daquilo que somos. Não obstante tudo isso, sou uma acérrima defensora - no âmbito da responsabilidade criminal - de um direito penal que privilegie a liberdade de execução ou não de um facto que, de facto, gere uma qualquer ofensividade de perigo ou de dano (fazendo recair uma maior importância sobre o 'desvalor do resultado' do que sobre um 'desvalor da acção', adveniente de um plano revolto de emoções ou calculismos). 
Resumindo: ainda que acredite num certo subjetivismo da realidade (que nos limita), quero acreditar que o que nos distingue como seres humanos é a capacidade de moldar a vontade (que, muito provavelmente, tem origem emocional) pela razão, fazendo valer uma espécie de 'livre arbítrio', no plano da exterioridade. Ainda assim, entendo que o direito não deve funcionar como uma espécie de moral aplicada com o objectivo de criar uma sociedade perfeita, sob as vestes de uma ética travestida. E, ainda que o absoluto seja um mar para onde possam desaguar todos os rios, não podemos esquecer os diferentes níveis de liberdade em que oscila o 'ser aí com o outro'. É nestes âmbitos de regulação da vida em sociedade que temos que descer ao plano da materialidade e de um certo existencialismo, além de uma essência que se move num rumo, mais curto ou lento, em direcção ao absoluto. É nestes domínios - onde se pune (com restrição da liberdade) a ingerência ofensiva na liberdade alheia - que temos que descer do idealismo de um absoluto a atingir, para não cair no erro de criar mais 'injustiças' do que aquelas que foram despoletadas pela colocação em andamento de uma acção censurável (desvaliosa), mas, no final de contas, inofensiva. Essa censura injusta que fique entregue à justiça divina, não à imperfeição frágil de homens moralmente imperfeitos. O contrário seria, no meu entendimento, a atribuição ao Estado de um certo paternalismo moralista.
Se esquecermos aquele âmbito (do direito enquanto forma de regulação do 'ser com o outro) e alargarmos os horizontes do 'ser comigo mesmo', acredito que sim, que a verdade é esse 'absoluto' que qualquer ser, com 'sede de conhecimento', pretende atingir. Não obstante, nesse campo, também me parece que as coisas não são tão lineares. E não o são, porque o inconsciente colectivo é feito de águas profundas onde se revolvem emoções (daí que diga que a origem da vontade, enquanto força motriz da acção, tem origem emocional ainda que seja reforçada por infinitas razões em que o intelecto gosta de navegar). 
É por tudo isto que entendo que o caminho para o Absoluto - o que quer que seja (e imaginemos que seja esse conhecimento do todo) - só se abre àqueles que sentem além da razão. Com todos os mistérios ou obviedades que aí possam residir. E não será esse mistério o alimento de uma busca incessante por aquela ideia de absoluto (que vai além de um mundinho pseudo-consequencialista do 'ser aí com o outro')? 
Ao mesmo tempo: parece-me inegável que o 'ser com o outro' nos expanda pela experiência e que nos permita (através de um conhecimento consentâneo, por analogia, ou dialéctico, por oposição) penetrar no 'real obejtivo', aumentando a nosso real subjectivo. Pela positiva ou pela negativa, o 'ser com o outro' enriquece o 'ser comigo mesmo' e permite expandir horizontes mentais, que vão além daquilo que os olhos possam visualizar. 

* E escreveria interminavelmente enquanto vou pensando, Pedro. E, no fundo, tudo isto é um conjunto de hipóteses, de premissas. É um pedaço da minha 'subjectividade'. E, pensando um pouco mais nisto tudo: se a verdade for mesmo subjectiva, que culpa têm aquelas que vêem o 'real obejctivo' de forma distorcida? 

MV


quinta-feira, 16 de abril de 2015

I refuse the normality
because is boring,
without light,
tedious.
I usually think that 
there are anything so beautiful
than a free soul. 
So... 
Love isn't melancholy;
possession;
fear 
or insecurity. 
Maybe love is just an ideal...
and I like to idealize 
smiles, beauty, inteligence and freedom.
The possession feeling is the worst sickness of the soul:
suppress;
asphyxiate.
I will always scoot of it.
So... while...
Just like Bukowski wrote one day...
 "there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes"





segunda-feira, 13 de abril de 2015

O consenso em excesso entedia a alma. O que sobra é a rebeldia de ser o que somos. Sobra a revolta da diferença, na crença de que algo nos distingue, que supera a falácia do visível. O 'go with the flow' também cansa e mais não é do que nos ausentarmos de nós. E a percepção, que se desenvolve misteriosamente em silêncio, faz com que o nosso mundo vá tão mais além das palavras que proferimos. 
Resumindo: dane-se se o mundo discorda; dane-se se o mundo não entende, ou censura, ou não está preparado para ouvir. Se existe 'livre arbítrio' (ou 'vontade' que supere a influência do meio), a liberdade só aflora naquela rebeldia de ser único, de ter essa leveza anímica e essa capacidade de 'não seguir a manada'. O intelecto padronizado também cansa. A ousadia, nesses domínios, liberta.


 

sábado, 11 de abril de 2015

Os olhares respondem calidamente
quando silenciosamente os procuro.
Os meus olhos perdem-se no que vêem,
nessa beleza do desprendimento.
Os olhares prendem as distancias que libertam
e a realidade esvai-se porque é só o que vemos.
E o que importa o que vemos se não for amor?





quarta-feira, 8 de abril de 2015

Às vezes, o pensamento solta-se num vento em que o caos se dissipa para trazer claridade. E essa claridade é somente pedaço de um todo, cuja infinitude não é cognoscível. É um pedaço de percepção que vem como suspiro e penetra em nós como quem percebe que o céu é azul, depois de ter vivido uma vida inteira a achar que era anil. Sem fatalismos ou pessimismos. A claridade tem a leveza da mudança, no plano da interioridade.
Foi essa claridade que, em conversas de sol, me fez enterrar razões nascentes da necessidade de perceber uma razão inatingível. Afinal, há planos onde não cabem palavras articuladas para corresponder a certezas infalsificáveis; onde não cabem actuações formais, a seguir a linha do politicamente correcto. Há coisas em que só cabe a simplicidade de dizer uma verdade (sei lá se apenas do momento - deixará, o momento, de revelar verdades? ) sem renunciar àquilo que somos. Há coisas que não devem deixar de ser ditas com base na crença de que o outro perceberá o que nem nós percebemos.
Por mais que as palavras certas possam ser escolhidas para atribuírem um significado singular a algo, o que importa é que as formas, às vezes, não significam nada. Nada. E "palavras são só palavras", tal como pensamentos são só complicações racionais sob as vestes cor-de-rosa de remédio eficaz. Fará sempre parte da nossa vontade percebê-las pela sua penumbra ou pela sua claridade.
No fundo, é isso: deixemos os formalismos e as intelectualidades. O mundo não é linear e as certezas que o pensamento nos envia são falsificáveis. A vida não combina com verdades simples caladas. Mas, sorrindo sorrateiramente entre claridades, calemos as penumbras... sem deixar de perceber que calar não é deixar de ver: é irrelevar.



quarta-feira, 25 de março de 2015

O optimismo e a espontaneidade deveriam ser uma espécie de oxigénio. Mas quem quiser ser pessimista que esteja à vontade.  
Há dias em que a razão cansa: torna-se inútil, até. E todas as filosofias do mundo parecem pecar pela desnecessidade. Mas os que forem felizes em fazê-lo, que também estejam à vontade.
O mundo é simples: vivemos sob o império da vontade. O problema é que nem todos têm o mesmo nível de liberdade, sem reducionismos na significância da palavra. Nem de liberdade nem de consciência. Mas deixemos isso para outro dia. Hoje a filosofia soa a problematização desnecessária. E o sol brilha lá fora. ;) 





terça-feira, 24 de março de 2015

Andamos por aí e, do nada, tropeçamos no sonho. É obvio que cada sonho pode ser percebido como pesadelo. A eterna questão é: como queremos que seja?

Os idealistas colorem o mundo com base num onirismo em que a realidade sucumbe. Os realistas conformam-se com um mundo funcionalisticamente injusto e incolor. Uns quantos inrotuláveis ficam confusos na alternância entre um mundo a cores e outro a preto e branco. 

Ninguém tem a certeza de nada: uns criam e mudam as coisas, os outros mantêm-nas; uns arriscam, outros jogam pelo seguro. Coitados destes últimos: não perceberão que o jogo em excesso, mais do que perda de vida, leva ao fracasso da percepção de que o que acontece no mundo não depende de uma única mão que lança dados... e que o destino não é mais do que um campo heterogéneo em que conflituam vontades desvendadas e recalcadas??!

Os idealistas, impregnados de uma beleza que vem de dentro, são traídos pela sua própria boa energia e pela sua vontade de construir um mundo cor-de-rosa para todos. Ironicamente, aprendem a desenvolver a consciência ao mesmo tempo que percebem que, ainda que estruturas desabem, o mundo continuará sempre a ter o mesmo reflexo cor-de-rosa.
São estes que me fazem refletir se KANT não se encontraria perto da verdade quando defendeu a sua subjectividade... e que me fazem, a contrário senso, pensar se a verdade existe mesmo. Não será a verdade uma idealização perdida numa hipotética absolutização conceitual?





segunda-feira, 16 de março de 2015

O mundo celebra, a 8 de Março de cada ano, o dia internacional da mulher.
Celebra-se um género, uma condição, uma emancipação que - com a leveza do passar dos séculos - abandonara a fatídica submissão relativamente ao cromossoma y.
Não sou feminista, não defendo uma igualdade absoluta ou formal entre géneros... mas tenho aversão ao preconceito social de matriz machista que, por conservadorismo, erige tudo que mexa com sensorialismos sexuais à esfera do tabu ou do antimoralismo. 
Resumindo: pode haver beleza e elegância sem objectivizações standardizadas daquilo que é um corpo 'sócio-sexualmente' desejável. E, normalmente, há mais do que isso. Mais do que qualquer aparência mais ou menos (subjetivamente) apetecível. Então, meninas, não se reduzam! Talvez assim, com base em 'pequenos nadas', a sociedade mude e o mundo (tão freudiano) se torne menos hipócrita!



quinta-feira, 5 de março de 2015

Exalação de liberdade.
Pedaço de mistério
onde se avulta a teimosia
e a contrariedade de ser.
Fome de novas sensações,
num empirismo que se expande
e a paradoxal insatisfação na busca
de um ideal que nunca chega.
Sede de aventura
em contradição com uma certeza viciada.
Sorriso iluminado pela espontaneidade
numa escuridão de normalidades tediantes.
Pensamento que se encontra e se perde
para viver na aparência de algum dia se ter encontrado.
Uma brisa calorosa que o destino
me concedeu por um momento.



quarta-feira, 4 de março de 2015

Tudo começa na frase: "knowledge is power" ("Ipsa scientia potestas est"). O problema é que há quem, perdendo-se em relativismos racionais, reduza a significância generalista de 'conhecer'. 

O plano do 'saber' não necessita de concretizações: encontra-nos no plano etéreo onde se formam as ideias; um plano além das aparências ou formas, que dão azo à identificação. Todavia, 'conhecer' implica o usufruto ou contemplação de uma qualquer concreticidade materializável. Não dispensa o empirismo. Quando estas duas capacidades se cruzam nasce um inesgotável potencial mental. E, na verdade, o saber acaba por se alimentar de uma contínua satisfação do conhecimento que, consequentemente, só nasce da busca insaciável pelo desconhecido. 

Não obstante, na minha opinião (feliz e livremente subjectiva), a beleza está na raridade do encontro daquela união desprendida, que se permite "ser sem restrições", com uma metodologia prática (do conhecer) que não descura a teoria (do saber), vivendo com aversão a calculismos. 
Só uma pessoa com elevado grau interior de liberdade vive o espírito frenético de atracção pelo desconhecido sem o medo de fracassar que carregam os que não conseguem abdicar de 'tácticas de actuação' para obtenção de um qualquer objectivo. 

Só aqueles que amam verdadeiramente a liberdade se alimentam do absoluto: são essas raridades -  pessoas positivamente loucas - que me dão esperança na ponderação valorativa da vida.


 

segunda-feira, 2 de março de 2015

 Não consigo deixar a abstração, própria de quem sabe o que quer dizer mas prefere guardá-lo num canto inviolável da alma. E a fertilidade do silêncio leva-nos, tantas e tantas vezes, a percepções que tocam o cliché da intraduzibilidade em palavras. 
Um dia destes li um pouco de Machado de Assis, que dizia: "gosto que me adivinhem". Identifiquei-me. Gostei unicamente por isso: olhem a inarredável presença e influência do ego naquilo que amamos. Distraímo-nos e, em pequenas coisas, lá está ele com um olhar analítico e gritante de uma qualidade ou defeito que, com base na analogia, identificamos no outro. Não é isto narcisismo?! Mas deixemo-nos disso: voltemos à abstração e ao gosto pela percepção inteligente, que abre portas à adivinhação de um estado de alma. 
O pensamento abstrato aplicado à vida gera tantos problemas interpretativos quanto as interpretações jurídicas: acaba sempre por haver quem, de uma palavra, tenha a confiança excessiva (tantas vezes ridícula) da interpretação extensiva e, pelo contrário, aqueles que, na ausência de uma certeza fonética, ficam convictos de que 'ali' não impera mais do que uma interpretação ab-rogatória (por excesso de humildade ou, tão somente, por 'deficit' de confiança). E no meio desta selva caótica em que se traduz um encontro de psiques em clima de socialização, raros são os que conseguem apagar o ego próprio para perceber com veracidade o que está dentro daquelas almas unidas pelas circunstâncias. 
E o problema é sempre a analogia: só uma alma complexa teria a capacidade de adivinhar uma semelhante, numa intensidade que só compreende quem é 'elitista' na partilha. 
Adianto, ainda, que o silêncio (onde tantos 'marinheiros' se perdem em tentativas) não constitui uma ausência de percepção. Pelo contrário. Poderia traduzi-lo em momentos maximizadores de consciência (que ficam tão aquém de presunções de ignorância). 
Além desse reino, que toca o verosímil, há a necessidade de fuga de uma realidade crua e a utopia de quem sonha sempre com o melhor: uma utopia com que, tantas e tantas vezes, me cruzo (e me perco). E repetidas vezes caio, aí, no ridículo da interpretação extensiva de uma beleza anímica que vem de dentro, desprendida da absolutização do reino das formas corporais (que ligam as pessoas unicamente pela circunstância ou voluptuosidade do momento). Sou assim...e, identificando-me com Jorge de Sena, "não hei-de ter emenda".
Reflexivamente: não há uma alma complexa sem um qualquer paradoxo. Há uma parte de mim que ama a verdade e a percepção inteligente que subjaz as palavras. Há uma outra que se alegra e se expande na rebeldia de ser, na aventura de conhecer, na aversão ao tédio existencial, na fome de um conhecimento, na alegria da partilha de bons momentos com amigos e conhecidos (e no conhecimento vicioso de desconhecidos que, tantas vezes, viraram conhecidos e por quem vou guardando carinho). Há uma parte de mim ambiciosa: ávida de todo o tipo de conhecimento. Talvez venha daí a insatisfação crónica e a necessidade (sempre rebelde) de superar o que sou. 
Como dizia recentemente a um amigo: "sou uma descrente que acredita" e "há uma parte de mim que quer colorir o mundo".  


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

E no final (real ou ficcionado), o que importa são os sorrisos, a empatia, os abraços, as pequenas loucuras que a experiência assimila... a disparidade discrepante que nos conforta e nos traz de volta à realidade. Ou melhor, os pequenos momentos de amizade que fazem com que os nossos pensamentos fiquem mais iluminados. E a verdade (se é que ela existe), é que a nossa mente é o nosso mundo. Por isso, é sempre bom ter pedaços de alegria exógena que afastem as nossas nebulosas mais negras.

17/06/2013


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A sensibilidade em excesso torna os seres frágeis, porque a percepção (em que se avulta a consciência) aconchega perfeccionismos que reduzem o 'eu' a mera poeira estelar.
Mas quem disse que não dá para combinar a sensibilidade com a expressão criativa da individualidade? Ser sensível não tem de fazer do sujeito um amontoado receptivo de sensorialidades externas em que se perde a intangibilidade anímica que nos distingue. É da confiança do que se 'é' que resulta a, simultânea, afirmação e definição do 'eu'. Perguntar-me-ão: mas "definir não é limitar?". Responderei: "É, sim. Mas 'ser tudo' é uma renuncia do que somos: a aniquilação de um individualismo que, ao dissolver-se no todo, se reduz a nada."

* Precisamente por isso: pensem o que quiserem! ;)





sábado, 7 de fevereiro de 2015

Perguntaram-me: "o que queres?"
Paralisei o pensamento no olhar, enquanto a boca se abriu para dizer, como o poeta: "quero ser eu sem restrições!"
A resposta valeu um sorriso impregnado de ironia (in)concretizadora, própria do pragmatismo que respeita as hierarquias assentes na ostentação indolente do verbo 'ter'.
Pensei um pouco mais e adiantei: "claro que quero ter, viajar, ler, sentir, experienciar, mudar: viver! Viver sem amarras restritivas e, de preferência, impregnada de beleza e arte. Não custa imaginar!"


Saber o que quero?
Quero tanto coisas distintas:
"definir é limitar"!
A liberdade esvoaçante de ser sem restrições!
A opacidade mental que se impacienta com auto-limitações!
O temor ávido da imposição dogmática
e o desrespeito pela intolerância consciente.
O lema: ser em liberdade!
A felicidade que a efemeridade eterniza em pequenos nadas,
na intensidade com que nos doamos ao tempo que o tempo nos dá!
A busca de um ideal que se encontra numa efemeridade que perecerá...
e a certeza de que novas efemeridades nos farão alimentar essa busca.
Ah, a ambição inadiável de expandir o eu:
conhecer, sentir, mudar, viajar, crescer!
Nunca fui dada à inércia de não ser!
O desperdício da vida está em não sonhar!
Sem paciência:
Deuses... não me venham limitar!







quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

É com um sorriso que partilho convosco um 'pequeno nada' de felicidade: um poema da minha autoria foi selecionado para publicação na VI Antologia de poetas portugueses contemporâneos, intitulada "Entre o sono e o sonho". 




sábado, 31 de janeiro de 2015

Não sei se é pela miscigenação de cores gritantes ou se é, simplesmente, por criar como ninguém sensações de alegria: a pintura de Afremov tem o toque sublime que impregna de beleza e de nuances luminosas qualquer dia cinzento. 
Com certeza, a arte (em todas as suas hipotéticas materializações) traduz-se em muitos dos 'pequenos nadas' que, ao criar um brilho especial no olhar de quem contempla, nos atira para o êxtase da "eterna novidade do mundo".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobrevoa!
Há tanta liberdade em sobrevoar...
Quem tiver que perceber, perceberá.
Quem não perceber é porque continua escravo.
E há tantas subtilezas além do óbvio...
e tanto de óbvio além das subtilezas.




sábado, 24 de janeiro de 2015

Num destes dias gelados alguém me disse: "és uma pessoa reservada".
Olhei para cima em tom pensativo, enquanto enrolava o cabelo, e respondi: "se as pessoas mais próximas ouvissem isso rir-se-iam, porque eu falo imenso, com naturalidade, sobre qualquer coisa".
A resposta foi: "Elas não percebem".

Confesso que a minha primeira tendência é pensar, por rebeldia ontológica, que eu é que sei o que sou. Depois, tentei olhar para mim de fora e percebi que talvez esconda o melhor.
Falo de facto, sobre qualquer coisa, sem falsos pudores. Não me choco com muita coisa. Faço piadas. Intelectualizo. Sorrio. Tantas vezes ironizo. Superficializo. Agito a vida com a beleza ou a sujidade de pequenos nadas. Fujo da realidade e tropeço em mim:

como reajo ao que tem importância?






terça-feira, 20 de janeiro de 2015

As crenças (enquanto manifestações rígidas de apego a uma verdade ilusória), talvez sejam mesmo irrelevantes. O mesmo não se aplicará aos pensamentos que as formam. 
Ups... talvez algumas sejam socialmente impostas ou aceites pelo conformismo em que germina a inércia do pensar. Mas isso também é irrelevante. 
Não sei se Deus é arquitecto mas, com certeza, é perito em matemática.



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O que nasce do que vem de 'baixo', influenciando-nos de forma invisível.
O que é quase imperceptível e nos revolve a partir de dentro, sem que percebamos: o inconsciente.
O que nos avulta o impulso, além da razão: segurança/insegurança, magnetismo sexual, sombra, medo, intensidade, poder. 
Há sempre um Hades dentro de nós. 

* Ilustração do rapto de Perséfone