sábado, 31 de janeiro de 2015

Não sei se é pela miscigenação de cores gritantes ou se é, simplesmente, por criar como ninguém sensações de alegria: a pintura de Afremov tem o toque sublime que impregna de beleza e de nuances luminosas qualquer dia cinzento. 
Com certeza, a arte (em todas as suas hipotéticas materializações) traduz-se em muitos dos 'pequenos nadas' que, ao criar um brilho especial no olhar de quem contempla, nos atira para o êxtase da "eterna novidade do mundo".

3 comentários:

  1. Em relação à pintura, devo dizer que aprecio de sobremaneira qualquer produção dentro do hiper-realismo. Considero-as simplesmente extraordinárias. E reveladoras, claro, de uma magnífica perícia por parte de quem as produz. Para o caso, destaco um nome: Rob Hefferan. A beleza das suas figuras femininas é estonteante, plena de poesia e de silêncios. Contudo, não há dúvida que o contraste de luminosidades de Afremov tem algo de extraordinário. E combina bem com as incidências de um dia cinzento, pois ilumina-as de pronto. Concordo contigo, portanto. ;)
    Deixa-me só sublinhar essa frase final, o «êxtase da "eterna novidade do mundo"» para o qual, dizes, a arte dos 'atira'. Quão complexo é despertar, em nós, essa capacidade de ver cada dia como algo de novo... Sem memória, despojados de tudo. Num vazio que sendo nada é tudo. Ou como o poeta disse: «ser como o sol que desperta e olvida o negrume da noite anterior». Porém, vivemos na 'continuidade', numa linha infinita que sobre si dá voltas e voltas, qual samsara endiabrada... Uma mente entorpecida condiciona-se, limita-se, sabota-se. É, de facto, uma 'condição ideal' essa capacidade de renovação diária. Um estado a aspirar, diria. Mas no 'aqui e agora', pois tudo se inicia em nós. Enfim, que a arte possa ao menos afastar a cortina e, por breves instantes, deixar escapar um pouco da luz que reina nessa mente capaz de viver o instante, de ser fluida, de ser... livre.
    Beijos.

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  2. A curiosidade que me aviva o impulso levou-me a 'conhecer' um pouco da obra de Hefferan. Gostei. Combina a natural beleza erótica feminina com traços de pureza. Um antagonismo que, como bem disseste, deixa a mente de quem contempla "plena de poesia e de silêncios". Obrigada pela revelação: não conhecia.
    Relativamente à "eterna novidade do mundo"... é aquela desprogramação total que nos leva a abandonar os preconceitos sobre tudo; que nos obriga a olhar para algo como se nunca o tivéssemos visto, sem pensar em significados, sem racionalizar: olhar e ver como quem contempla a novidade eterna das coisas... em paralelo com a mutabilidade de um 'eu' que, por se refazer a cada dia que passa, se torna mais rico.
    A arte e, sobretudo, a imaginação contribuem para isso. Mas fazem-no de forma racionalizada, porque há um ideal que se cria. Há uma beleza subjectiva que germina da potencialidade criativa de um eu. Por isso mesmo, a arte, é uma manifestação do 'eu' do seu criador, como as palavras que articulamos (às quais atribuimos forma ou enredamos num conteúdo), dizem um bocado acerca de nós e do nosso potencial imaginativo.
    O Alberto Caeiro olhava para as coisas sem filosofia: apenas com sentidos. Em arte, olha-se para o banal com uma imaginação criadora, que avulta os sentidos com o intuito de gerar beleza. Ao mesmo tempo, anestesia-nos do mundo. De facto, agora deixaste-me a pensar. A arte é uma fuga e uma criação. Uma negação do real e um melhoramento do mesmo. Um paradoxo adorável! E, claro está, enquanto capacidade criativa é um mundo onde se manifesta a irrestrita liberdade de 'ser', a par da manifestação da nossa intrínseca individualidade anímica.
    Beijos

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  3. eheh conheço bem essa curiosidade... Fico feliz por ter gostado e, claro, contactado com um pouco da obra de Hefferan, até então para ti desconhecida. É um nome, como tinha dito, cujo trabalho muito aprecio. Quase na mesma linha, temos o português António de Macedo... Durante a década de 80 teve um grande apogeu, embora por óbvias razões só o tenha conhecido mais tarde. Estranhamente, hoje em dia encontra-se pouca coisa sobre ele. É pena.
    Sim, concordo contigo... A chave estará mesmo aí: no sentir a real realidade para além da realidade aparente. E para isso importa ir além das palavras, dos significados, dos símbolos... Um estado de 'vazio', um nada que tudo é. Veremos então a natural fluidez de tudo, o brando movimento da vida, a constante mutação de tudo.
    É mesmo um 'paradoxo adorável', sem dúvida... Caeiro era grande, sim, mas quando penso nele ligo-me logo ao seu correspondente americano, Whitman. Para mim, mais exultante, espontâneo, natural... Há uma tristeza que sempre senti em Caeiro, pelo que coloco o velho Walt uns patamares acima pela sua autenticidade. Mas no fundo ambos usavam amplamente os sentidos. Com todo o respeito por pessoa, Caeiro parece-me muitas vezes uma 'tentativa de ser', enquanto Whitman é um ser completo em sua excelência. É uma posição discutível, claro, daí não ser mais do que uma reflexão. Curiosamente, e penso que até já te confessei isso, até creio que é em Ricardo Reis que Pessoa consegue atingir notáveis níveis de profundidade... Ainda que aprecie Caeiro. Uma coisa não impede a outra =)
    Beijos, Maria. Espero que estejas bem.

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