quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobrevoa!
Há tanta liberdade em sobrevoar...
Quem tiver que perceber, perceberá.
Quem não perceber é porque continua escravo.
E há tantas subtilezas além do óbvio...
e tanto de óbvio além das subtilezas.




2 comentários:

  1. Este leitor, de passagem, teve de perceber e julga ele que percebeu, ainda que a verdadeira comunhão entre escritor e leitor se faça talvez além das palavras que se escrevem e lêem.
    Sobrevoar é transcender. E transcender é permanecer no centro de si próprio - um espectador do ser. Quantas flores viçam além da rosa, quantas rosas se desfloram além das flores... Botânica à parte, ficou dado o mote: sobrevoa!
    Beijos ;)

    PS: naturalmente, toda e qualquer interpretação por palavras exposta não escapa à inevitável hipótese de 'desvio de intenção', no que às primordiais razões da autora, que sustentaram o texto, dizem respeito... Em suma: um breve poema / desabafo agradável de se ler. ;)

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  2. É por aí, mas não foi bem isso: andava mais rebelde.
    A verdade é que o acto de 'sobrevoar' não constitui mais (ainda que metaforicamente) do que a uma forma de ver as coisas do alto. E ver as coisas de cima implica uma maior percepção da globalidade da verdade que engloba qualquer circunstancialismo.
    O que quis dizer com aquelas palavras foi que, além do nosso mundinho egoístico-circunstancial (onde, tantas vezes, nos deixamos embeber pelos sentidos ou pelos sentimentos baseados num querer aflorador de desejos), existe uma verdade objectiva que se percebe pela globalidade de um ou outro pormenor que a natureza nos envia pelos sentidos e que a análise corrobora pela razão.
    Assim, o que quis dizer prende-se à complexidade de perceber o que está oculto nas pessoas ou nas circunstâncias que, com base em 'pequenos nadas' (sempre neles) se tornam evidentes a quem levanta voo (porque sobrevoar, em si mesmo, acarreta a meta da tal 'plenitude'). O que quis dizer é que, quem não deixa o seu mundinho e envereda nos caminhos sinuosos da percepção do outro, será sempre escravo do desejo: escravo de um querer que se torna 'crença' e que, por isso, fica fadado à desilusão dolorosa.
    Não quero reduzir tudo a este pensamento: a verdade, por mais que se encontre numa visão global do todo (falando em termos abstractos), não deixa de se evidenciar e concretizar na evidência dos detalhes. E a complexidade da natureza humana (sem clichés generalistas) pode facilmente levar-nos a uma percepção mental, com base na evolução da razão, ainda que perdurem resquícios de escravatura egóica em campos onde as emoções se geram, tornando inarredável a equacionação da crença (materializada em esperança) perceptível pela subsistência do desejo.

    E, além de tudo isso (da percepção que sobrevoa e que intui a verdade com base em 'pequenos nadas'), vem sempre a rebeldia ontológica de ser. A rebeldia de ser mais do que se parece, do que transmite, do que se comunica ou evidencia. A rebeldia de sobrevoar campos que os répteis não vêem, porque estão demasiado ocupados no caminho unidireccional do desejo em que rastejam. E ver isso (perceber isso), torna-nos livres. Livres na razão. É isso: se, por um lado, nos elevamos pela razão (o conhecimento transmuta-se numa sabedoria que desapegadamente sobrevoa); por outro lado, seremos eternamente escravos das nossas emoções, porque as emoções são sempre campos onde reina uma esperança que também tem asas (e que, ao embelezar o mundo, tantas vezes insiste em colori-lo para o tornar mais interessante). Acho que foi o Exupéry que disse que somos eternamente escravos por aquilo que cativamos: concordo. Mas acho que somos também escravos daquilo pelo qual nos deixamos cativar, porque nos vicia as sensações que geraram o surgimento da cativação, gerando uma complexa adesão irracional à esfera de um querer que se enleva na constatação do desejo.
    Como te tinha dito: talvez isto não passe de uma teorização de uma mente complexa: algo que a maioria das pessoas com quem lido no quotidiano não percebe, porque não sobrevoa. Daí que tenha dito em tom rebelde: "quem tiver que perceber, perceberá". E é isso: qualquer buscador de verdade tem fome de subtilezas e de 'pequenos nadas'. A subtileza embeleza mais do que a palavra dita numa verdade nua e crua. E sim, é verdade que há dias em que só há paciência para essa verdade expressiva e sincera. Mas é a subtileza que aviva o mistério e que traduz a percepção daquilo que as aparências podem, até, contrariar: somos tão mais do que aquilo que mostramos.

    Gostei da tua interpretação. Beijo :)

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