terça-feira, 24 de março de 2015

Andamos por aí e, do nada, tropeçamos no sonho. É obvio que cada sonho pode ser percebido como pesadelo. A eterna questão é: como queremos que seja?

Os idealistas colorem o mundo com base num onirismo em que a realidade sucumbe. Os realistas conformam-se com um mundo funcionalisticamente injusto e incolor. Uns quantos inrotuláveis ficam confusos na alternância entre um mundo a cores e outro a preto e branco. 

Ninguém tem a certeza de nada: uns criam e mudam as coisas, os outros mantêm-nas; uns arriscam, outros jogam pelo seguro. Coitados destes últimos: não perceberão que o jogo em excesso, mais do que perda de vida, leva ao fracasso da percepção de que o que acontece no mundo não depende de uma única mão que lança dados... e que o destino não é mais do que um campo heterogéneo em que conflituam vontades desvendadas e recalcadas??!

Os idealistas, impregnados de uma beleza que vem de dentro, são traídos pela sua própria boa energia e pela sua vontade de construir um mundo cor-de-rosa para todos. Ironicamente, aprendem a desenvolver a consciência ao mesmo tempo que percebem que, ainda que estruturas desabem, o mundo continuará sempre a ter o mesmo reflexo cor-de-rosa.
São estes que me fazem refletir se KANT não se encontraria perto da verdade quando defendeu a sua subjectividade... e que me fazem, a contrário senso, pensar se a verdade existe mesmo. Não será a verdade uma idealização perdida numa hipotética absolutização conceitual?





1 comentário:

  1. Creio que lançaste aqui algumas questões cuja exploração daria para encher (várias vezes) algumas chávenas de café... =) Ou qualquer outra coisa que os hipotéticos convivas preferissem, claro está.
    Lembrei-me, contudo, e por isso a resgato, da ideia de 'vazio' que no comentário anterior referi. Podemos ver o real como uma tela em branco, tingida pelas cores que possuímos em nossa paleta. Funciona, assim, como um objecto de projecção. Daí, a dita subjectividade... Penso que poderíamos pegar por aí. No entanto, a um nível mais profundo, será que emergiria um princípio de unidade? Enfim, somos partes e mesmo as partes estão tantas vezes fragmentadas, ainda que onde haja 'parte' se poderá encontrar ou apenas antever um qualquer 'todo'. Mesmo assim, não será esse 'todo' algo mais que a mera soma das partes? Mas voltemos ao vazio. Não surgiria tal estado quando todos os condicionamentos cessassem? Se retirarmos da equação o medo, as inseguranças, ânsias, memórias, conhecimentos... tudo - um estado de plena vivência presencial, o eterno presente, imaculado. Será que aí a dita Verdade se anunciaria? Será mesmo a Verdade, a existir, ou Deus (conotações religiosas à parte), ou o Infindo, o Absoluto, o nome não importará, isso que então se depararia diante do olhar? Em constante fluxo, em constante renovação? Longe das manchas do pensamento, fruto das memórias e da experiência, logo condicionalismos por excelência?
    Enfim, não queria especular... Embora, por esta altura, receie já o ter feito. Entende o anterior discorrer como mera indagação, mera exposição de visões... No fundo, são visões que partilho.
    É curioso que este tema surja, pois recentemente elaborei um poema, inevitavelmente alvo de futuras revisões, onde levemente abordo certas adendas do caso. A título de curiosidade, e de sadia partilha, aqui te o deixo.
    Beijos. Gostei, como sempre, de ler as tuas 'inquietações' (será esse o nome mais apropriado? =) )

    «São coisas mortas
    as palavras do Homem.

    Rosas, talvez,
    das mais belas que houve,
    aguardando somente o dia
    em que pousarão na lápide do tempo
    como poeira que são.

    Encarnam a verdade!, dizem.
    Falam da verdade!, aclamam.

    O que encarnam porém
    se não a ideia de quem as esculpiu?
    O que dizem
    se não a história de quem as pensou?

    A Verdade é como um novelo:
    desenrola-se diante dos olhares.

    Os mais avisados, cegos ignoram-na.
    Mas aos frugais entreabre-se a porta.

    A Verdade é um mistério.
    Como compreendê-lo senão vivendo-o?»


    (08/03/2015)

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