segunda-feira, 2 de março de 2015

 Não consigo deixar a abstração, própria de quem sabe o que quer dizer mas prefere guardá-lo num canto inviolável da alma. E a fertilidade do silêncio leva-nos, tantas e tantas vezes, a percepções que tocam o cliché da intraduzibilidade em palavras. 
Um dia destes li um pouco de Machado de Assis, que dizia: "gosto que me adivinhem". Identifiquei-me. Gostei unicamente por isso: olhem a inarredável presença e influência do ego naquilo que amamos. Distraímo-nos e, em pequenas coisas, lá está ele com um olhar analítico e gritante de uma qualidade ou defeito que, com base na analogia, identificamos no outro. Não é isto narcisismo?! Mas deixemo-nos disso: voltemos à abstração e ao gosto pela percepção inteligente, que abre portas à adivinhação de um estado de alma. 
O pensamento abstrato aplicado à vida gera tantos problemas interpretativos quanto as interpretações jurídicas: acaba sempre por haver quem, de uma palavra, tenha a confiança excessiva (tantas vezes ridícula) da interpretação extensiva e, pelo contrário, aqueles que, na ausência de uma certeza fonética, ficam convictos de que 'ali' não impera mais do que uma interpretação ab-rogatória (por excesso de humildade ou, tão somente, por 'deficit' de confiança). E no meio desta selva caótica em que se traduz um encontro de psiques em clima de socialização, raros são os que conseguem apagar o ego próprio para perceber com veracidade o que está dentro daquelas almas unidas pelas circunstâncias. 
E o problema é sempre a analogia: só uma alma complexa teria a capacidade de adivinhar uma semelhante, numa intensidade que só compreende quem é 'elitista' na partilha. 
Adianto, ainda, que o silêncio (onde tantos 'marinheiros' se perdem em tentativas) não constitui uma ausência de percepção. Pelo contrário. Poderia traduzi-lo em momentos maximizadores de consciência (que ficam tão aquém de presunções de ignorância). 
Além desse reino, que toca o verosímil, há a necessidade de fuga de uma realidade crua e a utopia de quem sonha sempre com o melhor: uma utopia com que, tantas e tantas vezes, me cruzo (e me perco). E repetidas vezes caio, aí, no ridículo da interpretação extensiva de uma beleza anímica que vem de dentro, desprendida da absolutização do reino das formas corporais (que ligam as pessoas unicamente pela circunstância ou voluptuosidade do momento). Sou assim...e, identificando-me com Jorge de Sena, "não hei-de ter emenda".
Reflexivamente: não há uma alma complexa sem um qualquer paradoxo. Há uma parte de mim que ama a verdade e a percepção inteligente que subjaz as palavras. Há uma outra que se alegra e se expande na rebeldia de ser, na aventura de conhecer, na aversão ao tédio existencial, na fome de um conhecimento, na alegria da partilha de bons momentos com amigos e conhecidos (e no conhecimento vicioso de desconhecidos que, tantas vezes, viraram conhecidos e por quem vou guardando carinho). Há uma parte de mim ambiciosa: ávida de todo o tipo de conhecimento. Talvez venha daí a insatisfação crónica e a necessidade (sempre rebelde) de superar o que sou. 
Como dizia recentemente a um amigo: "sou uma descrente que acredita" e "há uma parte de mim que quer colorir o mundo".  


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