segunda-feira, 20 de abril de 2015

Em torno do real...

Olha, Pedro Belo Clara (isto seria a minha responta ao teu comentário sobre a subjetividade/objectividade do real) ...


Gosto de ver o real como uma subjetividade em construção, condicionada pelos hipotéticos condicionamentos natos e inatos, que nos marcam além da vontade. Penso que existem factores endógenos e exógenos que acredito serem dificilmente afastáveis. Mas, lá está, como inegável idealista que sou, gosto de ver o real como uma folha em branco em que a vontade expele cores além do arco-iris. Afinal, expandir a mente é o que nos permite ir além, daí que me fascine a filosofia e a criatividade, a arte, as viagens e o desconhecido sempre por descobrir (essa vontade de ir além e de quebrar restrições que aprisionam a mente). 
Assim sendo, talvez essa expansão da mente nos leve no caminho da perfeição. Não de uma perfeição chata, aborrecida ou pragmática de um ideal de 'ser'. Nada disso. Talvez isso apenas nos liberte de amarras a que, por ingenuidade ontológica, gostamos de nos prender. Sejamos sem restrições. Acredito que só assim atingiríamos uma perfeição que nos colocaria acima de qualquer contrariedade do mundo material e nos aproximaria de uma ideia de omnisciência apoteótica, que nos ligaria ao todo, na crença da existência de um inconsciente colectivo que liga mundividências individuais (talvez seja aí o plano em que um Deus qualquer, supra-religioso, lance os dados e ligue vidas como quem resolve uma equação matemática, em que jogam constantes e variáveis). 
Sei lá. O real, no meu entendimento, acaba por ser subjectivo, apesar de um certo objectivismo daquilo que objetivamente deva ser o tal 'absoluto' (com uma boa dose husserliana, em contraponto com Kant, no que toca à fenomenologia do conhecimento). É por isso que entendo que a verdade objectiva seja aquele todo perfectivo e de quase inatingível omnisciência. Depois, claro está, o subjetivismo desenvolve-se em várias escalas ou patamares existenciais de consciência. E a vida em sociedade dá-se, no meu entendimento, nessa discrepância de consciência que, consequentemente, gera distintos níveis de liberdade. Enfim. Este é um tema que me fascina. As opiniões são muito minhas e não quero fazer disto uma qualquer verdade universal, afinal faz parte da minha mundividência subjectiva que, convenhamos, anda longe do 'absoluto'. Todavia, confesso, gostaria imenso de um dia (daqui a uns anos, quando a bagagem científica e cultural me permitir) escrever sobre isto, estabelecendo uma conexão com aquilo que seria a minha própria teoria sobre a origem da vontade. 
Com base em algumas das premissas enunciadas anteriormente, acredito que não é difícil prever acontecimentos, porque acabam por derivar daquilo que somos. Não obstante tudo isso, sou uma acérrima defensora - no âmbito da responsabilidade criminal - de um direito penal que privilegie a liberdade de execução ou não de um facto que, de facto, gere uma qualquer ofensividade de perigo ou de dano (fazendo recair uma maior importância sobre o 'desvalor do resultado' do que sobre um 'desvalor da acção', adveniente de um plano revolto de emoções ou calculismos). 
Resumindo: ainda que acredite num certo subjetivismo da realidade (que nos limita), quero acreditar que o que nos distingue como seres humanos é a capacidade de moldar a vontade (que, muito provavelmente, tem origem emocional) pela razão, fazendo valer uma espécie de 'livre arbítrio', no plano da exterioridade. Ainda assim, entendo que o direito não deve funcionar como uma espécie de moral aplicada com o objectivo de criar uma sociedade perfeita, sob as vestes de uma ética travestida. E, ainda que o absoluto seja um mar para onde possam desaguar todos os rios, não podemos esquecer os diferentes níveis de liberdade em que oscila o 'ser aí com o outro'. É nestes âmbitos de regulação da vida em sociedade que temos que descer ao plano da materialidade e de um certo existencialismo, além de uma essência que se move num rumo, mais curto ou lento, em direcção ao absoluto. É nestes domínios - onde se pune (com restrição da liberdade) a ingerência ofensiva na liberdade alheia - que temos que descer do idealismo de um absoluto a atingir, para não cair no erro de criar mais 'injustiças' do que aquelas que foram despoletadas pela colocação em andamento de uma acção censurável (desvaliosa), mas, no final de contas, inofensiva. Essa censura injusta que fique entregue à justiça divina, não à imperfeição frágil de homens moralmente imperfeitos. O contrário seria, no meu entendimento, a atribuição ao Estado de um certo paternalismo moralista.
Se esquecermos aquele âmbito (do direito enquanto forma de regulação do 'ser com o outro) e alargarmos os horizontes do 'ser comigo mesmo', acredito que sim, que a verdade é esse 'absoluto' que qualquer ser, com 'sede de conhecimento', pretende atingir. Não obstante, nesse campo, também me parece que as coisas não são tão lineares. E não o são, porque o inconsciente colectivo é feito de águas profundas onde se revolvem emoções (daí que diga que a origem da vontade, enquanto força motriz da acção, tem origem emocional ainda que seja reforçada por infinitas razões em que o intelecto gosta de navegar). 
É por tudo isto que entendo que o caminho para o Absoluto - o que quer que seja (e imaginemos que seja esse conhecimento do todo) - só se abre àqueles que sentem além da razão. Com todos os mistérios ou obviedades que aí possam residir. E não será esse mistério o alimento de uma busca incessante por aquela ideia de absoluto (que vai além de um mundinho pseudo-consequencialista do 'ser aí com o outro')? 
Ao mesmo tempo: parece-me inegável que o 'ser com o outro' nos expanda pela experiência e que nos permita (através de um conhecimento consentâneo, por analogia, ou dialéctico, por oposição) penetrar no 'real obejtivo', aumentando a nosso real subjectivo. Pela positiva ou pela negativa, o 'ser com o outro' enriquece o 'ser comigo mesmo' e permite expandir horizontes mentais, que vão além daquilo que os olhos possam visualizar. 

* E escreveria interminavelmente enquanto vou pensando, Pedro. E, no fundo, tudo isto é um conjunto de hipóteses, de premissas. É um pedaço da minha 'subjectividade'. E, pensando um pouco mais nisto tudo: se a verdade for mesmo subjectiva, que culpa têm aquelas que vêem o 'real obejctivo' de forma distorcida? 

MV


1 comentário:

  1. Sim, creio que conseguimos entender o quão te interessa o tema... eheh Acho extraordinário, e isto já antes te o disse, como uma resposta tua a um comentário assume perfeitamente a forma de um novo trabalho passível de se publicar aqui no blogue. Aliás, fizeste bem, creio, em separá-lo da outra publicação, pois o texto é praticamente uma publicação nova. Por isso, tenho a agradecer-te a satisfação que me proporcionaste com a leitura de um 'novo' texto =)
    Muitas coisas foram ditas, e delas muito se poderia aprofundar... Retenho e sublinho o que me pareceu essencial, reduzido à mínima facção possível (sem daí retirar mérito): «Sejamos sem restrições». Talvez o resto seja silêncio, como disse Shakespeare... Ou talvez não.
    Espero sinceramente que possas um dia, quando te sentires aptas a tal, cumprir esse teu intento de escrever algo mais sobre o tema. Se o resultado surgir em forma de livro, já sabes... pelo menos um exemplar tem já a sua venda reservada... ;)
    Beijos, Maria. Tem uma óptima semana.

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