domingo, 28 de junho de 2015

"Procuro não ter planos para a vida para não atrapalhar os planos que a vida possa ter para mim."

 *Quem escreveu essa genialidade foi Agostinho da Silva. Claro que não quis, com isto, dizer que não devemos ter planos. Claro que devemos (com toda a tolerabilidade impositiva do verbo 'dever)! Isto do direito 'juridicializa' a linguagem dos pensamentos. Não é que a vida possa ter planos para mim: a plenitude vive-se entre um Zeus que se mostra, um Cronos que se realiza e um Hades que, negando-se, se liberta na luz daquilo que todos vêem, acabando por se transformar.
Assim sendo, sem querer ser intelectual 'snob', o melhor (e só é melhor para mim) é projetar metas, estabelecendo 'regras mínimas', sem querer controlar a vida, sem querer apequenar o mundo e a mente. Sem 'harmonizações' colectivas em nome de qualquer tipo de adaptabilidade que nos descaracterize.
No meio disso, que venha o caos enriquecedor que, descurando uma ordem em linha recta, nos faça ter a ávida sensação, no dia em que Maat realizar o julgamento final, de que a vida valeu a pena. Sem egoísmos ou falta de sensibilidade, que têm os que deambulam na univocidade de um caminho sem curvas, em que 1 + 1 sempre originará um 2 linear. E, claro está, se o que importa é realizar o 'self', que se tente tudo aquilo que a vontade nos impelir: que o 'I want' não se deixe castrar pelo medo de falhar. Se isso acontecer, pensemos além de nós, além do ego e da realidade do momento: percebamos o que nos envolve e, depois, tentemos novamente aquilo que a realidade, já ampliada, despertou novamente desejo no ser. E eu sei que os budistas dizem que deveríamos eliminar o desejo - os estoicos também apregoavam a eliminação do prazer para evitar a dor -, para sermos felizes unicamente pelo 'I am'. 
Bem, eu aprecio as teorias budistas e as que dissertam os caminhos pseudo-tântricos que passam os abismos de Daat, mas só é feliz quem não se deixa frustrar. Admito que, um dia destes - se tiver sorte e for realizando as minhas vontades -, perceba que, afinal, os budistas tinham razão na sua sabedoria e embarque, tal qual o Siddartha de Hesse, num retorno a um estado de contemplação original. Até lá, continuarei a pensar que a transcendência da matéria deve basear-se em algum domínio sobre um Cronos que, não se frustrando, se realiza.
Deste modo, a vida é um confronto de egos e vontades (declaradas ou inconscientes) em que cada um estabelece batalhas de hidras entre um Zeus que se quer agigantar, um Hades que intranquiliza, por perceber os submundos dos que nos rodeiam, e um Cronos que, na sua rigidez, gosta de castrar a criatividade que nos distingue (Uranus). Que Zeus leve a melhor e, se possível, que traga Apolo e Uranus à equação de luz, sem descurar minimamente um Cronos de passos lentos e seguros.
Os herméticos da antiguidade tinham sete leis. A primeira era:
"O todo é mente. O universo é mental."
Vamos ampliar o nosso? E porque não torná-lo único, ao mesmo tempo que pretendamos inovar ou melhorar as regras do 'status quo', sem desrespeitar as hierarquias do tempo, com elegância? 
Depois, se não gostarmos, que venham as renúncias neptunianas e as transcendências em prol da fusão com o todo. A renúncia do ego só vale quando ele existe e, já forte, se aniquila por vontade. Sempre por vontade. O resto são teorias bonitas que nos fazem frustrar pelo romantismo envolvente de manipuladoras histórias da carochinha. 


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