quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Deixei ir a nuvem negra
que nos prendia.
Deixei-a na imensidão de um céu azul
de lembranças por escrever.
Deixei as trevas que me fizeste sentir:
a memória só te traz, de vez em quando, num sorriso.
Mas o sorriso é meu,
ninguém o arranca,
nem nos dias em que a chuva
traz pensamentos mais desassossegados.
Ninguém o arranca de mim,
porque até o desassossego é mera impaciência
com o instante que ainda não foi,
na previsibilidade certeira do que será.
Enquanto isso,
encosto-me ao sol das novidades e
perco-me noutros vôos.
Quando me vires voar, como quem anda,
sorri apenas.
Sorri, mas não me procures.
Deixa-me sobrevoar outros mares,
em que não haja tempestades;
Deixa-me fundir no tempo
em que a felicidade extravase gratidão.
Deixa-me ser criança,
na espontaneidade que não perderei.
Já deixei, já me desapeguei.
Agora deixa-me:
deixa de me aparecer quando me julgo noutra onda,
de um mar de tsunamis adormecidos,
em que a tua lembrança traz o calor gelado de ausência.
Deixei-te ir quando coloquei intensidade nas palavras que devia ter calado,
mas a poesia não dá espaço a ausência de sentidos.
Milímetros tornam-se metros de profundidade.
E isto não se quer melancólico:
é um devaneio ensolarado numa chuva de percepções.
Só voltei aqui porque estou 'além':
além de ti, além de mim, além do que foi e do que será.
Estou a rir-me de mim.
A rir-me da fuga em que me coloquei
e dos excessos e das renúncias
que me levaram a perecer na verdade do que senti.
O resto foram irritações com provocações alheias.
A razão morrera por instantes,
mas rápido voltara
com a espontaneidade
e o com o optimismo que jamais morrerá em mim.
Talvez a tua nuvem ainda paire sob o meu subconsciente,
mas a razão voltou e desprendeu o nó que dei sem querer.
E agora já consigo rir-me de mim,
de todas as racionalidades e emoções sufocantes,
e da eterna benção e maldição de sentir abismos em cócegas existenciais.
Um sorriso matou uma razão pretensamente imortal.
Agora ela voltou e afastou a nuvem que pairou sobre o meu sol.
Soltei-me e voei.
Se me vires passar, podes sorrir-me, mas deixa-me ir.
Deixa-me conhecer outros céus.
Seria uma questão de tempo até me entediar com a tua previsibilidade imprevisível, que me fascinou.
E outras impossibilidades se insurgirão apetecíveis.
Outros sorrisos gerarão brilho no meu olhar.
Deixa-me ir, que não tenho feitio para o meio termo da existência.
Se te lembrares de mim, podes sorrir, mas jamais me procures.
Há outras aventuras e outros céus. Outros horizontes. Outras irracionalidades que me prenderão.
Talvez, no fundo, tenhas sido apenas um alvo circunstancial
em que tentei extravasar o amor que há em mim.
Alguém que, talvez sem querer, me tocou.

Alma Salgueiro

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