sábado, 17 de outubro de 2015

Anoiteceu como todos os dias, mas viram ali o que sempre lhes fora invisível: o miscigenar das cores quentes com o azul frio, em que o alaranjado se dilui, deixando laivos rosa sobre a linha do horizonte. Naquele dia, como em tantos outros, a beleza saía deles pelos olhos, tropeçando em sorrisos equilibrados, tímidos, pelo medo de dizer o indizível, nessas horas em que a razão complica e atormenta a simplicidade das evidências.
Interpretando os silêncios dançantes entre os movimentos suaves, serenos, ansiosos ante a compulsão convergente dos corpos; entre os brilhos que os olhares refletiam; entre a pele dos dedos, que se enlaçaram sem perceberem. O que quer que tenha sido aquilo, qual milagre, sintonia física e anímica, grito unívoco, pulsão descontraída, desapossada...palavra não inventada, eles souberam que era amor. E que o amor estava neles. Sabiam que não necessitavam um do outro, que seguiriam com carinho. Sabiam, no fundo, que era melhor deixarem de se ver: o amor amplificado, viciado, leva à paixão. E eles, sem saber, sentiam que seria um ponto sem retorno. Foi por isso que se contentaram com a eternidade daquele pôr do sol.

2 comentários:

  1. A envolvência deste breve texto é algo de extraordinária beleza... Graças às imagens da atmosfera invocada. A poesia, assim, não reside tanto na escolha dos vocábulos, mas naquilo que o leitor deles intui. Tanto pelo concreto que inspira como por aquilo que permite adivinhar.
    Pulsa a eternidade do momento, o único ouro que o entre mortal pode na matéria saborear, por estas linhas também impregnadas de uma doce melancolia... Eternidade essa mutável, ainda que o olhar engane as percepções; mutável pois, invariavelmente, a noite terá o seu lugar. Mas na hora do poente só o poente importa. No centro de tudo isto, o dócil rebento que se quer fazer flor, fruto da semente germinada entre o encontro das duas figuras centrais. Pena, apenas (e aqui o 'comentador' comete a pena capital de imbuir em sua apreciação (como convém, imparcial) um toque deveras pessoal), que ambos (amantes? sombras? aves?) não arrisquem o alimentar de tão frágil flor sob pena de a ver, um dia, manchada pela face mais distorcida do amor. Quase que leva à seguinte questão: impedir todos os sorrisos que podem nascer só pelo assombro das lágrimas futuras? Mas até esse aspecto tem no texto a sua justificação.
    Em suma, este texto traduziu-se numa agradabilíssima experiência pelo simples facto de revelar uma faceta tua, Maria, não tão habitual ou conhecida. De qualquer modo, parece-me um caminho a merecer nova atenção. Sem dúvida alguma... ;)
    Beijos. E desculpa qualquer travo mais poético neste comentário... Mas o teu texto a isso me inspirou. Gostei bastante.

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  2. Pois é, Pedro! Este trecho saiu do meu lado mais romântico, que gosto de esconder por detrás das palavras articuladas pela razão. Saiu dos devaneios que me assolam o pensamento e que me elevam a outra dimensão. Saiu do romantismo racionalizado por uma vã filosofia desapegadamente feliz, ainda que com um traço de saudade. Nestas coisas do amor, só podemos ser felizes em liberdade, ainda que isso seja um normal antagonismo do desejo, que é algo diferente mas conciliável. Filosoficamente, de vez em quando, sinto uma espécie de inundação de amor universal, que me leva a questionar o que realmente nos define. Por mais que o meu lado emocional se perca na intensidade que toda a alma complexa almeja, a verdade é que há a razão, essa maravilha que nos desprende do que nos oprime e aprisiona, ao mesmo tempo que nos prende àquilo que queremos de verdade, com base em afinidades essenciais que vão além de qualquer compulsão do sistema endócrino. (Agora viajei). Fico feliz que tenhas lido e gostado. :)

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