terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Biologicamente, ouvimos desde os primórdios escolares que somos seres que nascem para se reproduzir e morrer, não obstante a existência de uma história pelo meio.

Se formos pelo 'empirismo científico', a morte é uma perda em que se degenera a matéria e, com ela, supostamente tudo o que somos e que nos distingue de forma notória.

Psicologicamente, ouvimos o debate que se trava com a sociologia e se discute se tendemos a um determinado tipo de personalidade inata ou se não passamos de uma amálgama de assimilações exógenas dos meios em que vamos deambulando.

Animicamente, havendo inúmeros estudos acerca daquilo que seja a consciência, a verdade é que ninguém sabe muito bem o que a gera e como se expande, tal como nunca se soube muito bem se a verdade é subjetiva ou objetiva (o problema da fenomenologia do conhecimento).

Ultimamente têm falecido muitas pessoas famosas - artistas - e, em boa verdade, um artista é sempre alguém que se distingue ou que traz algo carismático e único à vida, que lhe confere brilho e individuação do meio. São pessoas que, mesmo sem querer, despertam algo nos outros, na vida em sociedade, seja pela instigação da alegria, da transmutação da melancolia em arte ou pela luta por uma evolução social (seja ela mais focada na igualdade, na liberdade ou na dignidade humana). A obra dessas pessoas nunca morre, porque transcende a matéria.


Resumindo: o que somos também não a transcende? Será que nos reduzimos a uma atividade cerebral em que, mecanicamente, um 'coração' sem sentimentos bombeia o sangue entre artérias e veias como se a vida se resumisse a existir por existir, entregue a um conjunto de acasos? Será que o que anima o meu corpo são apenas impulsos elétricos que ativam e ligam sinapses que me 'decidem'? Ou será que alguém sabe como nasce a 'vontade' de algo, essa metafísica que precede qualquer a ação? E não será que a liberdade, esse conceito tão amplo e denso e sempre por esgotar, envolve a metafísica com a razão (que também nos distingue) e pode contrariar qualquer tendência endógena ou exógena, funcionando em uma certa linguagem do 'senso comum' como uma espécie de consciência que nos liberta o 'espírito' das tendências mais primitivas ou animalescas que residem no nosso inconsciente (chamem-lhe isso ou ID, se quiserem)?

Ficam várias questões: será que fica apenas a obra material que o espírito concretizou na matéria ou naquilo que os cabalistas apelidam de 'reino de Malkut'? Ou será que a nossa energia e o nosso magnetismo pessoal sobrevivem à transformação da matéria e vivem a relatividade de um tempo/espaço indo ao encontro, não dos velhos princípios da física teórica, mas da já não tão recente 'física quântica'?
Talvez esteja na hora - independentemente de qualquer plano unívoco dos limites das crenças que criamos ou que nos são incutidas socialmente (como os dogmatismos religiosos) -, de se quebrarem paradigmas falsificados mas entranhados. E que se inicie um novo diálogo acerca do 'espírito', do 'ser', da 'metafísica da vontade' e das 'influências restritivas ou expansivas do meio', da epistemologia, do perecimento do 'método empírico' e da urgente redefinição daquilo que entendemos por 'essencialismo' e por 'existencialismo'.

*Inquietações matinais de alguém que acha que é tempo de se expandir a mente. 






 smi
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1 comentário:

  1. Achas, e achas muito bem... ;) A bem verdade, temos essa oportunidade no 'aqui-agora', a cada instante que passa. Um breve momento de quietude, de silêncio, de introspecção interior e, principalmente, vigilância sem julgamento pode auxiliar o ser a saber mais sobre si do que poderá imaginar. Essencialmente o pensamento (extensão de si próprio), já que nessa vigília a atenção irá captá-lo e compreender como surge e porque surgiu (o pensamento pertence ao reino do conhecido, uma vez que não consegue a mente elaborar um sem recorrer àquilo que já experienciou e, como tal, armazenou em memória). No fundo, trata-se praticamente de uma meditação, de um estado meditativo.
    Inquietações tais sempre são muito bem-vindas. Basta ver o tipo de texto que, tendo-as por base, se consegue construir. Gostei de ler, obviamente.
    Beijos.
    =)


    PS: tenho me esquecido, sei lá já há quantas semanas, de te dizer que embora não o tenha comentado por falta de oportunidade na altura, gostei muito do teu texto sobre o Eugénio de Andrade publicado lá no Letras... Enfim, dada a admiração que tenho por tal autor, um dos poetas portugueses que mais aprecio, não quis deixar passar a oportunidade de te dizer que, mesmo não comentando, o teu texto foi devidamente lido e apreciado!
    Beijos.

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