quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Às vezes, acho que atraio histórias, de fundo emotivo, daqueles que, de alguma forma, cambalearam pelas emoções da vida. No fundo, acho que incentivo o fluir dessas conversas: espero sempre por finais felizes e histórias de amor. 
De vez em quando, lá as ouço enquanto rejubilo e fico com esperança no mundo. Outras vezes, fico presa a filosofias ante as descrições fáticas, atribuladas ou desprovidas de sentidos românticos. Numa destas noites, em que o calor dos dias não abandona os locais com a ida da claridade, ouvi a história de vida de um senhor. 
Aparentemente, queria contar-me a sua 'história de amor' ou, melhor, a forma como conheceu a sua esposa, mãe dos filhos, com quem constituiu família e, acima de tudo, companheira existencial nestas 'coisas da vida'. Não obstante o meu entusiasmo inicial (apreciável pelas minhas perguntas centradas, enquanto as velhas memórias do senhor o desencaminhavam de sentido), fiquei muito triste ao perceber que não era uma história de amor: era um conjunto de acasos, pressões familiares e circunstancialismos. 
Apreciei, sobretudo, a sinceridade com que o senhor admitiu que, à primeira impressão, nem achou a esposa bonita ou encantadora de alguma forma que supere o mundo das aparências: resolveu, depois, por acaso ou falta de opção, enviar-lhe uma carta que fora correspondida. Mantiveram a conversa e resolveu casar com ela com base nas pressões referidas. Disse que, para a altura, já casou tarde. 
Na verdade, vi nele mais entusiasmo enquanto me contava acerca das aventuras que viveu em viagens pelo centro da Europa, enfatizando os pormenores de, dentre as quais ressaltava uma noite de aventura dormida na rua, em uma praça de Amesterdão, do que na forma como resolveu casar. Havia, notoriamente, falta de paixão e de afinidade anímica. O resto da história ficou por ali. E eu fiquei introvertidamente reflexiva: não havia mais conteúdo, além de mecanicidades humanas em nome do 'dever ser'. Confesso que, nesse dia, fui dormir desiludida. Acho que percebi que o amor, em que acredito, talvez seja uma flor rara. 
Para complementar, passados uns dias, enquanto passeava pela rua, encontrei outro senhor, velho conhecido. Perguntou-me se tinha namorado e aproveitou o sentido da conversa para me falar de velhos amores, de paixões antigas, enquanto o ouvia atenciosamente, não fosse aquilo tirar-me o pessimismo da conversa anterior. 
Não obstante, acabei por perceber que, muito embora o problema fosse diferente (o senhor parecia ter tido um passado de excessos de paixões, tão profundas que ainda ressoavam na forma como proferia os nomes ou aludia a aspetos desse passado longínquo), percebi como o orgulho ou o ego o impediram de ser feliz com a mulher que realmente amava, com quem não casou e que, devido a outros pormenores, nunca mais viu. Confesso que dava para perceber na entoação a saudade ou qualquer coisa de arrependimento. Fiquei com a sensação de que é uma dessas pessoas que segue sempre em frente e, não querendo olhar para trás, casou com alguém de quem embora goste (pela construção das pequenas coisas do quotidiano), nunca amou daquela forma em que o olhar brilha. 
Quanto a mim, fiquei novamente reflexiva. Perdi-me em filosofias: lá recaí na minha ideia de que o amor é livre e espontâneo, que não se artificializa. E, no meio de tantas racionalidades, que levam a infelicidades (constantes nos olhares de quem conta estas histórias), a conclusão, para mim é simples: 'follow your heart'. Always. Love is more than desire.  

By Mary

1 comentário:

  1. Estou em crer, pelo que já vou lendo, que um novo estilo se vai solidificando e, sempre que se justificar, assim merecendo novas oportunidades de expressão: a crónica. Mais um filão a explorar, quem sabe? Apenas poderei dizer que aprecio muito a junção das tuas reflexões na corrente descritiva que crias, a meio com os retalhos captados por uma observação atenta.
    No mais, creio que só me resta sublinhar aquilo que ressoou de modo mais vincado em mim, enquanto leitor. Primeiro, que entendo do mesmo modo como esse tipo de amor é, sem dúvida alguma, uma flor rara num deserto que tem obrigações, desejos, pressões, carências e receios na vez de pedras. Uma flor rara e frágil; no entanto, a (ou uma das) expressões mais puras do sentimento, enquanto humanamente possível. Sem liberdade, faltará invariavelmente ao amor uma asa. E assim, como poderá ele voar, como é o seu desígnio? Sim, uma flor rara... Sem dúvida uma flor rara. Mas não impossível de ser desfrutada (não poderei dizer colhida, senão todo o conceito de liberdade que falei cairia por terra... eheh). E isto apenas se vai ligar com a última frase do teu texto, de que «o amor é mais do que desejo». Muito mais, muito mais... Mas o que sabemos nós das estrelas? (um dia escrevi algo sobre isto...) Se tudo o que fazemos é gastar os dias a polir a estrada sobre a qual cumprimos um rumo que cremos auto-imposto ou consignado? É claro que, mesmo comportando o desejo, um amor autêntico é livre, como antes disse, não comporta apegos; e o compromisso que dele surge é tão natural quanto o do fruto que se abre ao pássaro que dele retira alimento, espalhando este depois as suas sementes para que outros frutos possam nascer. Ou seja, é um compromisso sem o peso habitual dos compromissos que mundanamente conhecemos, é uma dedicação sem causa, tão fluida como aquele que, por possuir tanta riqueza em si, a partilha - só pode partilhar aquele que tem algo para partilhar, não é verdade? Enfim, dizendo isto, e correndo riscos em me alongar para além da conta (existe mesmo uma?), este texto é o exemplo típico que reflecte a tua profunda sensibilidade, a tua limpa visão de espírito. Foi isso que em ti, sendo sincero, sempre achei (e ainda o considero) raro. Por isso visito tantas vezes este espaço... (eheh) ;-)
    Beijos. Desculpa se me alonguei. Talvez a divagação tenha soprado um pouco mais forte...

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