quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Se o universo me presentear
com um amor definido e concreto
além deste, humanamente abstrato,
que em mim transborda,
que seja informal e verdadeiro,
mais companheiro de aventura existencial
do que a concretização de um mero estado formal.
E que as palavras bonitinhas sejam sinceras
e que venham acompanhadas de espontaneidade,
ou que não cheguem a existir,
só porque fica bem
ou tornariam as coisas mais fáceis,
porque tenho um sensor que distingue o conteúdo
dos vazios que o ego costuma ouvir.
A beleza tem que vir de dentro
e fazer os olhos transbordar de brilho
ou fazer um simples abraço valer o mundo.
Ou então que não venha.
Esta sensação abstrata é tão boa:
tem o sabor da liberdade,
da paz e do infinito.´

By Mary

3 comentários:

  1. Existe um aroma que deste poema se exala tão magnificamente próximo do perfume da própria liberdade. Se escavarmos a terra donde brotou esta flor, estou em crer que veremos, embrulhado nas raízes do exemplar, um pequeno grande torrão digno desse nome - liberdade, quero dizer.
    É um poema simples em seus processos, pese embora a maturidade dos vocábulos expostos num timbre que me parece algo confidencial (impossível um poema não partilhar algo que cintila no âmago de quem o escreveu), mas de significância profunda. Ou não fosse arguto o olhar e afinada a percepção daquela que o escreveu. Surge, assim, ao entendimento deste humilde leitor como um poema-manifesto onde um "não-eu" se entrega nos braços da vida. Pois dá-se a renúncia de qualquer desejo, o abandono de toda a carência ou necessidade, armadilhas que na sua ilusão o ego humano constrói para sobreviver. (Daí ter usado a expressão 'não-eu', ausência de ego). De facto, excluindo todas estas parcelas, como não poderá a liberdade viver? Só assim a abertura ao que quer que se manifeste em cada instante da existência poderá ser total. Quem nada quer, tudo poderá saborear. Difícil de o fazer, contudo... Que ego gosta de abdicar? Oh, os ardis das ocultas carências... a cegueira que proporciona a noite que tarda em ser dia.
    Dentro desta linha, foi o poema um rio onde revi o meu coração. A poesia (e não só) tem estas virtudes. E revi-o por me identificar com a veia principal que o atravessa. Ou seja, com o permitir que as águas do grande rio corram, seja lá isso para onde for. Afinal, que rio não desagua num oceano imenso? Deixa, então, que junte o meu canto ao teu: o que quer que seja, que seja! Ou então, não seja. O que é, será certamente o melhor possível.
    Beijos. Um bom domingo para ti.

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  2. Sim, Pedro. Acho que captaste a liberdade que pretendo transmitir. Mas, na verdade, talvez seja uma liberdade de fuga. Um precalço de razão. Uma racionalização da realidade. A liberdade é essa fuga ao concreto. Todavia, não é uma liberdade pura: há sempre pessoas que nos levam na espontaneidade impensada com que se cruzam connosco. Espontaneidade que se torna espanto, quando percebemos os sentidos. Então, é um poema de abertura mas, ao mesmo tempo, de lembrança. E porque acredito que o amor verdadeiro só existe além da forma, quero acreditar que esse amor só convive com a liberdade, com a ausência de opressão, com o respeito necessário, que envolve isso que captas-te muito bem: a renúncia de ego e de persuasões (que deturpam a formulação de uma vontade substancial). O amor inquebrável que busco não se coaduna com falsas seguranças emocionais ou meras necessidades sexuais, ou com a beleza exterior (que é facilmente permutável). Então, talvez seja uma filosofia em prática. Um enlevo de liberdade, que é amor. E, ao mesmo tempo, uma fuga para o abstrato, para não perder a visão cor-de-rosa do mundo com as histórias concretas que me cruzam o caminho. Um beijinho e obrigada por leres o que escrevo, Pedro! :)

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    1. Sim, claro... é muito mais do que tudo isso. Como, aliás, tu mesma escreveste noutro texto que aqui tive oportunidade de ler: «love is more than desire». Claro que sim, muito mais... felizmente. Sim, o desejo manifesta-se também quando o amor floresce entre dois seres, mas o amor, na sua máxima ou mais pura expressão, é algo que o transcende. Está além de qualquer necessidade ou carência egóica. Talvez seja mesmo a única realidade para além de toda a ilusão projectada pela mente condicionada. Daí aquilo que falas, a tal "fuga para o abstracto". O verdadeiro amor, que concebo livre e incondicional, pelo menos tanto quanto ao Homem for possível vivenciá-lo e expressá-lo, será provavelmente abstracto, algo para além de qualquer racionalização e, por isso, algo onde não cabem motivos ou explicações - apenas a sua experiência, certamente uma forma de dança silenciosa.
      De nada; é um prazer ler-te, bem o sabes - sempre que se proporciona a oportunidade, claro.
      Beijos ;)

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