quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estas quadras festivas, em que o mundo desacelera, tornam-se especialmente propícias à reflexão e à percepção dos pequenos nadas que são tudo, ou seja, tocam na raiz originária do meu blog.
O retorno às raízes, à família, à percepção da essencialidade dos sentimentos, ainda que imersos numa sociedade vendida ao valor material que o capitalismo incrementou e que o egoísmo humano adoptou como forma de afecto. 
De facto, nesta época festiva, não consigo deixar de reparar em pequenas coisas, minúsculas minudências reveladoras de problemas profundos. Pois é, o optimismo idealista desta época nunca deixará de me fascinar mas, como em tudo, quando há muito de belo haverá, em igual medida, muito de obscuro. 
O Natal é assim: saída das trevas e retorno da luz. Todavia, as trevas de que vos falo não são mais do que os meandros do egoísmo humano. Do querer ter por ter, para ser mais, para se sentir melhor. O descuramento do outro, enquanto semelhante. A falta de sensibilidade para com o próximo. A falta de percepção de que a maioria de nós é sortudo, privilegiado, que a vida não foi bondosa com toda a gente. O não descuramento do orgulho como forma de enaltecimento próprio. A teimosia como forma demonstrativa de uma 'razão', que pouco tem de verdadeiro. A falta de paciência como ápice de um egoísmo intolerante.
Enfim, tristemente, a quebra da solidariedade interpessoal está notar-se até no Natal, que era (aparentemente) a última réstia de esperança. E o egoísmo cresce a olhos vistos chegando, inclusivamente, a tocar o despresível.
Hoje em dia, as pessoas têm medo da morte, não pela pessoa que morre, em si mesma, mas pela dor que lhes causa a sua perda; são caridosas, não pela bondade de 'dar', mas pela projecção social dessa dádiva; são cooperantes, porque sabem que é bem visto e que terão um retorno ou uma pedra argumentativa, a posteriori; não sabem distinguir o que é importante do que é acessório; não demonstram o que sentem e dizem qualquer coisa que lhes apeteça dizer, mesmo que isso magoe, premeditadamente, alguém; criam problemas com o mero objectivo de chamar a atenção das pessoas mais próximas. Arriscaria dizer que a maioria de todos anda embebido em discussões mesquinhas. Não vê quaisquer essências, não atinge qualquer subtileza, porque acham que a vida deve girar à sua volta. Isso mesmo: acham que nada que existe no mundo é mais importante do que o seu umbigo. Não conseguem sair de uma visãozinha redutora do mundo e da vida. Não percebem que existem problemas além dos seus. Que existem histórias muito mais dignas de dramas do que uma pequena implicância ou sentimento de desilusão. Não sabem ouvir, apenas querem falar. Falam de espectros de emoções recalcadas, de dores mal resolvidas ou autopromovem-se de qualquer modo. Não querem compreender. Não demonstram interesse em perceber. Acham que os outros são apenas isso, os outros. Não conseguem perceber qualquer metafísica, qualquer bondade pura, qualquer manifestação de luz própria desprovida de estratégias ou de qualquer tipo de calculismo. Canalizam a razão para a obscuridade, para a obtenção de benefícios, para chegar aonde seria suposto chegar, em termos sociais. 
Enfim, a maioria de todos anda constantemente perdida em primitivismos. Coisas que se vão desconsiderando e relativizando, numa sociedade acelerada em que o tempo é escasso e em que tudo é para ontem. 
Todavia, a falta de sensibilidade choca-me especialmente no Natal. E quando falo em sensibilidade não quero tocar em visões cor-de-rosa da realidade: nesse falso amor que todos apregoam. Não. Quero falar-vos da sensibilidade para com os outros, para com as suas fragilidades e para com os seus pontos fracos. Sim, toda a gente tem pontos fracos e ninguém é melhor por percebê-los e usufruir malevolamente deles, apenas para se sentir no topo de um pódio que só existe na sua cabeça. 
A vida é muito mais do que aquilo que irrealisticamente esses defensores do falso amor apregoam. Os pequenos nadas passam quase invisíveis e eu tenho muita pena de que a grande maioria das pessoas tenha de passar por situações-limite para se aperceberem deles, para lhes dar valor, para os sentirem (ainda que, até aí, o egoísmo esteja presente). E mais. Tenho muita pena porque isso, normalmente, ocorre tarde demais.
E, no entanto, continuo optimista. Esperançosa de que um dia possa ver pessoas mais conscientes, construirem uma sociedade melhor em que existam menos desigualdades, menos obscuridades, mais felicidade e, claro, mais sensibilidade para com o próximo.

E agora recordei esta reflexão de Pessoa, do Livro do Desassossego:

"Quanto mais alta a sensibilidade, e mais subtil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima."

Maria Vaz


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Utopias concretas que se aproximam
ou oásis que desertos viram partir.
Alarmes de um silêncio quase noctívago,
alimentado como que por magia ou telepatia.
Meros buscadores da supremacia essencial; ou
Nefelibatas de uma vida incandescente
que se sujeita a ventanias de imprevisibilidade.
Seres errantes que se encontrarão
devido ao erro que deram, precisamente, 
porque não queriam errar. 

Maria Vaz







segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Viver a equacionar o infinito,
o impossível,
o impensável:
eis o meu lema.

Velejar ao sabor
de um vento
que revolve todas as certezas,
para perceber a sua raiz.

Um querer crer
não sei bem em quê:
numa inteligência que tudo liga,
que tudo ordena.

Uma busca insaciável
pela verdade...
O que quer que ela seja.
Ou o mais próximo dela,
que talvez passe pelo sentir.

Um terrível impulso
para a precognição.

Para quê respeitar formas
se elas não passam de imposições?
Para quê viver alienado de substâncias
se são a única coisa que temos sem saber?

Fica somente o subtil.
O essencial.
A matéria apenas permite usufrutos
e qualquer propriedade é mera ilusão.

Uma inquietude,
de origem incógnita,
que teima em levar-me
ao que está oculto em aparências.

Uma busca...
não sei bem de quê:
fome e sede de algo
que parece estar
muito além...

A irritação da mentira
sobre uma verdade que se perdeu...
E a desconfiança
das verdades que se alcançam.

A tentativa,
sempre a vã tentativa,
de alcançar algo que cale o pensamento,
que acabe com o dualismo original.

A inquietação visível
com o contentamento descontente,
desses que nasceram para viver sem pensar.
Porque pensar é muito mais do que repetir:
repetir é acreditar em tudo;
É não sentir nada;
É viver com alergia ao verosímil.

A irritação com a desvirtuação
dos sentimentos,
aliada à banalização das palavras.

A revolta
com o fingimento da compreensão.

O repúdio pela
indiferença ao sentimento alheio
e pela ilusão daqueles que
pensam que sentem
mas que não sabem o que é sentir.

A indiferença
relativa aos que se acham
insubstituíveis;
face à sua magnânima mesquinhez.

A impaciência
com implicações
que tocam o desprezível.

A incompreensão.

Entre a mentira e a verdade.
A beleza e a obscuridade.
Entre o meu 'eu' e o mundo.
Muito longe daqui...

Maria Vaz






sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ASTROLOGIA: uma ciência?

A astrologia é um mundo em que gosto de me perder. 
Nela encontro explicações que o rigor do 'experiencialismo' (material), do método científico, afastam. Nela vislumbro respostas para coisas aparentemente inexplicáveis, porque detentoras de uma certa dose metafísica. Nela parecem residir mistérios que a ciência, enquanto construção teórica, ainda não conseguiu alcançar. 
É de notar que, quando falo de Astrologia, falo de uma ciência, porque, afinal, muito além da significância que lhe atribuímos por senso comum, falar de ciência é falar de conhecimento (da raiz latina scientia). E a astrologia é um verdadeiro sistema de conhecimento. 
As mentes mais cépticas e mais vendidas a preconceitos sociais (que rondam o ridículo por falta de fundamentação ou por indagações que tocam a questão da falta de 'padronização' ou  de coerência), contestarão. 
Essas mentes, quando muito, argumentarão tratar-se, no máximo, uma pseudo-ciência, devido ao facto de não acreditarem estar perante um verdadeiro conhecimento sistemático. 
Bem, respeito o argumento, todavia, sou levada a mostrar-lhes que a Astrologia é, ao contrário daquilo em que acreditam (ou queiram acreditar), um verdadeiro sistema. Contudo, é um sistema não linear. É complexo. A sua racionalidade é teórico-prática e extremamente analógica. Até porque, atendendo à realidade prática, se torna impossível padronizar totalmente pessoas, pelo simples facto de cada um ser único e dotado e uma particularidade individual, ainda que gerada de universalidades. Falando de forma simples: se não há ninguém igual a ninguém, ou seja, se somos todos diferentes, como podemos ser colocados em categorias, padrões ou rótulos? É impossível. É por isso que aqueles que pretendem adquirir conhecimento astrológico têm de possuir capacidade de raciocínio abstracto e alta capacidade interpretativa em termos simbólicos, realizando - na interpretação do mapa astral - um conjunto avultado de raciocínios analógicos, sendo certo que tem de existir uma base sólida de conhecimento, relativo a cada 'símbolo', sedimentado à priori. Na mesma linha de raciocínio (e falando da forma mais árida possível), muito embora sejamos todos 'feitos' do mesmo 'barro', todos temos diferenças (intrínsecas e extrínsecas) que nos tornam seres únicos, daí a irresultabilidade de qualquer estudo de demonstração empírica, em termos gerais.
Se me disserem que existem questões astrológicas que, muito embora funcionem na prática, não têm uma explicação teórica muito bem fundamentada, eu sou obrigada a concordar. Todavia, a crítica não pode esquecer aquilo que fora explicado supra, tal como tem de perceber que o tema em apreço toca temáticas que rondam o metafísico, não podendo, por isso, ser corroborado por meros estudos demonstrativos. 
V.g., se me perguntarem porque é que se define o signo ascendente pelo simples facto de o Sol estar a ascender a oriente sob essa energia (constelação) aquando da hora do nascimento da pessoa, a única coisa que saberei responder é que, de acordo com os ensinamentos mais antigos, é essa energia que marca a primeira respiração da pessoa (ou seja, marca o seu primeiro contacto com o meio), definindo a sua tendência de afirmação de personalidade, através do seu 'impulso' para a vida. Se me perguntarem mais porquês, não saberei responder, todavia, saberei identificar a personalidade, que lhe corresponderá, em termos práticos.
Se me perguntarem porque é que, através da energia presente no Medium Coeli (ponto ficcional do mapa astral, representativo do Zénite Solar)conseguimos perceber qual é o direccionamento social, em termos profissionais da pessoa ou qual o tipo de profissões que mais se adequam (ainda que devam ser efectuadas as devidas analogias, no caso de a casa X se encontrar 'habitada' por algum planeta - relevando a sua significância intrínseca, os seus aspectos e a sua dignidade, ou seja, saber se o planeta está domiciliado, exaltado, em queda ou em deterimento - entre esse planeta e a energia presente na cúspide dessa mesma casa), a única coisa que saberei dizer é que, de facto, por mais estranho que pareça, a pessoa em apreço tem determinada tendência a ser percebida socialmente e determinada tendência relativamente à sua forma de lidar com pessoas que estejam numa posição de supremacia (daí as analogias normais com o pai, o patrão, etc). Exemplificando: Uma pessoa que tenha Touro no MC (Medium Coeli), tenderá a ser uma pessoa determinada e persistente na busca de um prestígio social, vulgo, carreira. Será alguém, cujo ideal de trabalho é uma profissão que dote o sujeito de segurança, podendo ter a ver com a administração de recursos. Todavia, se essa mesma pessoa tiver Marte na casa X, em Gémeos, a energia de Touro tem de ser analisada à luz desta nova significância. A receptividade de Vénus - regente natural de Touro - passa a ser alterada pela tendência impulsiva (Marte) na comunicação (Gémeos). Para calcular a forma como essa pessoa se sairia nesse campo, teriam de se averiguar os aspectos de Vénus e os aspectos de Marte (designadamente conjunções, sextis, quadraturas, trigonos e oposições, ainda que se devam também atender a aspectos menores). 
Tudo isto para explicar que a racionalidade a aplicar não se pode basear em concepções meramente teoréticas e explicativas pois, se assim fosse, qualquer um interpretaria o seu próprio mapa. Ao mesmo tempo, não estamos perante uma racionalidade exclusivamente prática, uma vez que é necessário um estudo árduo, à priori, denotando a necessidade teórica.
Destarte, a astrologia é um conjunto dessa teoria (acessível a qualquer comum mortal) e de uma prática que tende a seguir um raciocínio analógico, o que complica a interpretação, para muitos.
Resumindo: que me digam que não conseguem entender, é uma coisa; dizerem-me que não se trata de um sistema de conhecimento, é outra. 
Dizerem-me que é ridículo ou mera coincidência é... bem... para esses só tenho uma coisa a dizer: vão estudar astrologia, como eu fiz (sozinha). Não digo que comecem nos primórdios, mas vão ler Dane Rudhyar, Liz Greene, André Barbault, Stephen Arroyo, entre tantos outros (há, inclusivamente, astrólogos portugueses muito bons). Desenvolvam o raciocínio abstracto e analógico. Se não ficarem convencidos, argumentem, mas não me digam que é ridículo, porque a astrologia transporta, em si, a compreensão do divino: corrobora a lei da correspondência; coloca em evidência a existência do Ritmo; da polaridade; do género; da vibração; da causa e efeito; e faz-nos perceber a importância da lei do "mentalismo", porque a mente é, de facto, a única coisa que nos permite mudar intrinsecamente. Façam-me um favor: não a fechem!! E perdoem-me qualquer ironia. 

Maria Vaz





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Somos tudo e nada.
Feitos e destruídos pelo tempo.
Oxidados pelos pensamentos que,
a toda a hora, respiramos,
com sofreguidão.

Somos recantos
e palavras.
Olhos.
Vontades.
Desejos.

Efémeros e eternos.
Palavras antagónicas.
Sentidos.
Um mar oculto,
envolto em espuma de mistérios.

Somos o segredo que alguém procura
e o Sol que alguém perdeu.
Os dias e as noites.
Isso.
E muito mais do que isso.

A sensação
ávida de liberdade
que o vento traz ao passar.

A escuridão e a luz.
A doença e a cura.
O amor e o ódio.
A coragem e o medo.
A curiosidade.
A busca 'não sei de quê'.

Sol e chuva.
Vida, morte e renascimento.
Um caminho.
Um fado.
Uma enigmática indefinição.

Tudo e nada.
E todos os nadas que há em tudo.
E assim vivemos:
a pensar que sabemos o que somos
sem nada saber!

Maria Vaz




sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Schopenhauer, n' "A Arte de Ser Feliz", deixa a pergunta retórica: 
"Onde fica, portanto, o espaço para a nossa felicidade?". 

Ele que escreveu, ex ante (ainda que por outras palavras), que acabamos por negligenciar o presente, entre as saudades do passado e as preocupações do futuro, vivendo de 'ilusões'. Defendia que se devia usufruir do "presente da maneira mais serena possível". 
Schopenhauer sabia bem o que dizia, no auge da sua cautela, não meramente pessimista. Todavia, perdia-se no unilateralismo do seu descontentamento. 
Por mais que o estado de alma tranquilo (em que a contemplação traz a verdade, a objectividade que só se vê além do ego, que nos torna tendenciosos, ainda que inconscientemente, porque a teimosia e a vontade de 'ser' acabam por nos trazer o orgulho de estar 'certo, de ter a 'razão' - como se a razão fosse um objecto e se pudesse adquirir),  possa ser considerado 'feliz', porque detentor de 'equilibrio', não me parece ser o meu ideal a atingir. 
Por mais que o autor conhecesse o ritmo (que tudo compensa), vendo o equilibrio como uma forma da velha máxima que defende que se deve "evitar o prazer para fugir à dor", julgo que se esqueceu de que esse estado de amenidade seria uma espécie de existência não vivificante, com intensidade, daquele mesmo 'presente'. Seria uma terceira via de fuga, além daquelas por ele mencionadas. Seria uma abdicação pura de sentir as pessoas e as coisas. Seria sobrepor a razão (fria e seca) a um sentir (quente e húmido) que, muito embora contenha os resquícios (e seja também a origem) das emoções que nos 'desequilibram', ao longo da vida, acaba por ser o essencial que os olhos não vêem (relembrando o clássico de Saint-Exupéry). Não serão, afinal, esses sentimentos, vivências, emoções, energia, que permanecem... e levamos desta vida, quando a morte, do nada, nos levar? Não serão eles a causa de uma evolução positiva (e talvez necessária para que atinjamos outros patamares)? 
Muito se fala acerca da felicidade individual, da sua existência ou inexistência, da sua efemeridade, da sua ciclicidade, da sua busca. Questões interessantes, com fundos de veracidade particular, que necessitam, no meu entender, de uma visão mais ampla do ser (além da imagem do Homem), da vida (além da existência), do acto de viver, do presente. 
E, além de tudo, ainda bem que é assim. Ainda bem que 'fugimos' dela e julgamos nunca a atingir. É que, além de sentirmos necessidade de acreditar, precisamos de sentir esperança na busca de algo. Já OSHO dizia (na sua obra 'Intimidade'), que o ser humano não se contenta com o que alcança, que vive sempre a busca de algo. Não poderia concordar mais.
Não passamos de poeira estelar agregada num corpo, animado por energia.
Somos uma partícula de um todo, que vive no eterno dualismo. Somos seres iluminados e obscurecidos. Vivemos entre o passado (que é somente o que a memória nos permite recordar, ainda que não haja um critério racional), e o futuro que é feito de sonhos e esperanças. E somos limitados. Limitados corporalmente, socialmente e, até, inconscientemente. A juntar a tudo isto, gostamos de nos limitar mentalmente. Não manobramos os pensamentos e, por esse motivo, continuamos a fugir. Mas fugimos cautelosamente. Fugimos do presente, com base no conhecido: poucos ousam pensar de forma ilimitada, de modo a tentar, ininterruptamente, melhorar o estabelecido, porque se torna mais fácil seguir os ditames de uma estrutura dada como certa, ao invés de inovar; poucos têm coragem de adentrar num mar de emoções, de tudo e todos, que estão por toda a parte; poucos sentem; poucos compreendem; poucos têm sequer noção da sua particular existência. 
Enfim, somos todos escapistas e buscadores.
 Todavia, as buscas sofrem delimitações: uns, mais primitivos de espírito, buscam os prazeres do corpo e a sua subsistência, não ultrapassando esse âmbito (contentam-se com o meio e apenas buscam novos 'objectos'); outros, habituados a seguir a 'manada', buscam (além dos prazeres corporais e da subsistência), o reconhecimento social que acham que merecem (sendo que esse 'reconhecimento' é, na maioria dos casos, feitos à luz do seguimento de pensamentos, da estrutura social ou das concepções dominantes), sendo mais regidos pela razão do que pelo sentimento, factor, aquele, que predomina até nas suas relações sociais; Um grupo, de entre estes últimos, busca a inovação de pensamento e a rectidão, um aprimoramento da sociedade ou das instituições, associações ou grupos em que se insere, seguindo a 'manada', ainda que com um sentido de 'dever ser' intrínseco à sua essência, não obstante a tendência a seguir determinadas conveniências sociais, por motivações egoísticas; À parte, outros existem que pensam além da estrutura, ousam ir mais longe e questionar o que mais ninguém questiona (por conveniência ou comodismo), gostam de inovar e sentem (sentem tudo - as pessoas, as imagens, as palavras), o que lhes vale a conotação de 'estranhos', 'diferentes' - porque gostam de chocar, de sentir a intensidade de tudo, além do intelecto - são os 'artistas'  (que compreendem os outros, devido à sua grande 'receptividade', muito embora tenham dificuldade em se sentir compreendidos), e buscam a transcendência, o retorno à luminosidade estelar, acabando por inspirar os outros; no final, encontram-se os 'sábios', inspirados pela filosofia e pela compreensão das leis da natureza (que vão muito além das imperfeitas leis humanas, cheias de lacunas e limitações funcionais e temporais) - são aqueles que, de acordo com Schopenhauer, vivem o presente com serenidade, em equilibrio. Buscam exclusivamente a compreensão e a sabedoria. Resignam-se a viver as leis naturais e a seguir aquilo que a vida lhes traz. Vêem a felicidade em tudo, mas são os mais tristes. Vislumbram a vida como um milagre, mas vêem a verdade por detrás da aparência. Sentem mais a linguagem corporal do que as palavras. Observam e abdicam. Guardam. São os que mais fogem do presente. E são muito poucos. A verdade pesa mais do que o chumbo (não é por nada este metal corresponde a Saturno, que tem a ver com a estruturação, a tradição, o dever ser social, as limitações, a razão sobre a matéria - fria e seca, como o vento gélido de um dia de sol, sem nuvens, em que a humidade é escassa). Disse que não eram felizes, porque o equilibrio do yin e yang (em alusão aos orientais), pressupõe a integração dos opostos. Vivem entre a luz e os buracos negros e contentam-se com isso, porque têm noção da sua impotência. 

*Eu, no meio deste circo que é a vida, sinto-me uma perseguidora do impossível. Uma idealista. Uma escapista. Aliás, este texto não é senão produto de uma fuga do presente. Uma cristalização de pensamento que, certamente, ficará nas minhas memórias, alimentando o ciclo de fuga, que se vai renovando... a cada pormenor pelo qual a minha memória se apaixona ou que a minha vontade teima em assimilar como 'sonho', esperança, expectativa, mera conjectura ou juízo hipotético. 

E deixo-vos este 'bocadinho' de Álvaro de Campos:

"Porque eu amo infinitamente o finito, 
Porque eu desejo impossivelmente o possível, 
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, 

Ou até se não puder ser... "

Maria Vaz








terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Dizem que no início apenas 'existia' o verbo. Dizem que o verbo era Deus. Dizem que Deus era luz e que a luz é energia, sendo a 'maior' energia, o amor. Dizem que o verbo está em tudo e todos, daí que seja omnipresente, omnisciente, omnipotente. Conceitos bonitos, passíveis de fé. 
As pessoas, envoltas na selva egóica da vida quotidiana, sem tempo para pensar ou avaliar o sentir, precisam de acreditar em algo superior. Precisam de acreditar num Deus com uma face, com um corpo, como uma identidade, que não nos comanda, mas nos protege, e que não fica impávido às mais prementes necessidades humanas. 
As pessoas acreditam Nele, enquanto entidade (não enquanto essência), como se não conseguissem partir de uma concreticidade com cara para um pensamento abstracto, que envolve uma essência que está em tudo e todos.
As pessoas precisam de ir à missa, onde vêem uma cruz com um corpo, para pensarem na origem daquilo que os leva ao local de culto; precisam da missa (enquanto ritual), para reflectirem nas palavras por detrás das alegorias que, muito sinceramente, poucos atingem. As pessoas precisam de se 'confessar' porque trazem consigo resquícios de emoções presas, recalcadas. Sentem peso na consciência, de alguma forma, mas preferem ir 'confessar-se' a um intermediário (uma espécie de representante de Deus na Terra), esquecendo-se que podem fazer isso sozinhos, em silêncio, porque não passa de uma questão de 'consciência'.
Eu, muito sinceramente, tenho medo de quem tem medo da solidão. Fico impressionada com a capacidade de repetição ritualística, por costume e acomodação, que vislumbro quando frequento locais de culto. Isto, porque as pessoas não pensam, não gostam de pensar e, acima de tudo, não gostam que lhes digam isso ou lhes façam questionar aquilo em que acreditam, porque sim. Porque o 'porque sim' é a melhor resposta que arranjam, após os argumentos que rondam a tradição e os bons costumes. 
Irrita-me ainda mais ver como esse tipo de comportamentos, inculcados nos rituais, se transmitem a outras áreas da vida, mormente a nível político e, até mesmo, pessoal.
As pessoas seguem a 'ordem' da vida política sem questionar, ou, mesmo questionando-se, deixam-se levar pela inactividade, pelo conformismo; conformismo, esse, que se vislumbra nos ditames de uma vida pessoal 'padrão'. 
E fico estupefacta quando constato que, na verdade, as pessoas, em geral, são muito facilmente manipuláveis, porque se reduzem veementemente; porque colocam toda a sua fé nas palavras que, um dia, alguém disse; porque se desacreditam; porque não afirmam a essência daquilo que são; porque têm medo da rejeição social; porque foram habituados a acreditar na forma e a nem sequer equacionar a substância; porque não percebem que o essencial nos é 'mostrado' pela consciência, em pequenos momentos de pensamento abstracto.
Na verdade, critico-os, mas não os condeno. São produtos de uma sociedade standardizada, que quer estereótipos de 'bons cidadãos', pessoas que sigam a norma, a regra, a manada, o 'dever ser' artificializado e que, jamais, o ousem colocar em causa. Pessoas que, mesmo vendo a sua qualidade de vida decrescer, continuem a achar que está a ser feito um bom trabalho, porque não ousam questionar o mérito de quem elegem, como se a imagem vendesse competência e os laços de sangue fossem garantidores de capacidade intelectual ou de bom carácter.
Enfim, não quero com isto criticar a prática religiosa de uns, nem dizer que esta 'realidade' é de todos. Não. Há, certamente, um ou outro ser deambulante neste país que está além deste discurso, que o compreende, muito embora prefira fazer corresponder a forma à substância, em prol do 'bom nome social' de que dependem, em termos profissionais ou por outros motivos. 
E, depois de ter escrito tudo isto, continuo a acreditar na precedência do verbo. Continuo a vê-lo em pequenos nadas que não envolvem, necessariamente, a ida a um local de culto. Continuo a acreditar nele sempre que vejo sentimentos fidedignos, que se vislumbram pela luz natural que irradiam, desde os mais simples aos mais intensos. Continuo a acreditar no amor (essa energia que nos une), como uma reciprocidade luminosa que irradiamos e fazemos irradiar, quando existe. Uma energia, sentimento, uma indefinição que se sente no plano pessoal e que, além daquele, deveria ser incentivada no plano social, em prol de uma solidariedade não denegridamente caridosa. 
E, acima de tudo, acredito que somos semi-definidos por aquilo em que acreditamos (sendo que não poderemos nunca ser definidos, porque existem em nós características que oscilam entre uma espécie de genes dominantes e recessivos, que o tempo teima em activar). Sou uma descrente que acredita. Mas, no meio de uma ordem artificial, que vejo desagregar sem questionar, acomodada, a razão teima em desacreditar o meu optimismo. 

Pablo Neruda escreveu:

"Si nada nos salva de la muerte
al menos que el amor nos salve de la vida"

*O Pablito que me desculpe, mas... no meio deste caos (disfarçado de ordem), o que é preciso é ironia. Ironia pura, porque as palavras só chegam aos ouvidos de quem as quer ouvir e não adianta passar a vida a dar sermão aos peixes. 

Maria Vaz