terça-feira, 28 de janeiro de 2014


O pensamento é como o tempo.
Por isso, hoje, as ideias são chuvosas
Sinto o impacto de cada gota a cair na calçada
E o seu desvanecer na ausência de forma.
Encharco-me de juízos, afugentando-me de mim.
Finjo pensar… quando só me deixo guiar,
Sei lá por o quê ou quem.
Emudecida,
Ouço a melodia da precipitação
Causadora da insónia,
Ao mesmo tempo que escuto as sinfonias
(Desarmoniosamente harmónicas)
Provindas de buscadores de uma felicidade efémera.
E tal como a queda das gotas de água remexem a calçada
Existem ondas de emoções a revolver-me o ser.

Maria Vaz


 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

No meio de papeis, ideias, pensamentos, raciocínios lógicos e intuições. Sim, numa simbiose com um meio alagado de preocupações: eis um ambiente de estudo de uma Faculdade de Direito em plena época de exames. E eu, aqui, perdida entre mim e os outros - entre ideias e possibilidades, entre a acção e o resultado: o mundo do 'desvalor' -, na constituenda tentativa (impossível) de fundamentar soluções. 
Dou por mim a pensar naquilo que nos leva a criar determinada opinião e perco-me numa argumentação interna.
A meu ver, uma pessoa que tenha acesso ao conhecimento, que tenha vontade de o adquirir e que domine a oratória e a retórica pode, neste mundo onde inexistem factos puros e lineares (verdades cristalizadas para a eternidade), defender qualquer perspectiva, relativizar qualquer teoria aceite. 
Constato que a maioria opta por defender aquilo que interiorizou como verdade - aquilo que outra maioria defende, por comodismo ou facilitismo, não ousando ferir egos inflamados que se (auto)colocaram em pedestais. 
Penso mais um pouco... para chegar à conclusão que, excluindo esses que se orientam numa linha de funcionalismo sócio-profissional vantajoso, existe algo muito peculiar no ser humano que o encaminha num sentido 'decisório': algo que, inexplicavelmente, brota de nós para nos fazer adoptar determinada posição ao invés de qualquer outra; algo que nos impele a defender uma causa. E sinto-me perdida numa espécie de contemplação do real nas pequenas coisas. É incrível como um tema, como uma causa, um gosto, um gesto corporal... pode demonstrar tanto aquilo que somos. E fico fascinada com o óbvio que todos demonstram e, logo depois, escondem ou negam. A verdade rodeia-nos e nós espelhamo-la em algo, colorimo-la ou denegrimo-la: acho que não a queremos ver. 
E, depois disto - depois de perceber, mais uma vez, que somos a causa e o efeito de tudo o que nos acontece - volto à triste dialéctica entre o desvalor de acção e o desvalor de resultado em direito penal. Volto à dicotomia liberdade/responsabilidade. Volto ao meu 'pequeno nada' que me impele a defender algo que mais ninguém defende. 

Maria Vaz


sábado, 11 de janeiro de 2014

Há coisas que as palavras não dizem,
que o interior sente
e que a lógica não deixa decifrar.
Há vazios de qualquer coisa esvoaçante
ou de um 'pequeno nada' agregador.
Incontente, resmungo,
na ausência de palavras.
Envolto-me na imensidão 
daquele silêncio que tudo faz perceber.
Liberto-me de tudo aquilo que é encenado
para encontrar o real.
Deixo-me sentir 
as marés de energias alheias e
fico anestesiada de pensar no que,
de tão perto, anda longe.
Há devaneios que precipitam a ousadia
de trazer à tona a carga mística 
que a razão teima em refutar.
Há dois lados que se cruzam.
Dois opostos que se integram.
E contemplo,eu,
este paradoxo que há em mim.

Maria Vaz





quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 Como costuma dizer a minha avó, a maioria das pessoas só sabe o pai nosso (que, de resto, é a oração essencial do catolicismo) até o "venha a nós". 
Vão à missa recitar umas orações que só o são na forma, porque totalmente desprovidas de essência, de intenção e de compreensão. Triste e ironicamente, as orações viraram ladainhas, repetições, qualquer coisa que se diz sem pensar. E pior. A grande maioria das pessoas acha que merece o céu (o que quer que isso seja) apenas por 'rezar' sem rezar, sem querer melhorar, sem demonstrar cuidado com o próximo, sem agir de acordo com aquilo que diz. E sem o tentar. Contentam-se com palavras soltas.
A agravar o panorama, não sabem em que é que acreditam. Acham que sabem, mas não sabem. 
Como pode alguém ser de determinada religião sem a perceber, sem saber com exactidão (ou máxima aproximação) aquilo que defende ou aquilo que está na base da 'crença', que é sua 'contitio' fundamental??
Pensando, a título de exemplo, no credo, podem constatar-se imensas antinomias entre o que se diz, na aparente oração, e o que se diz quando se pergunta a alguém cristão em que é que acredita. Arriscaria dizer que mais de 90% das pessoas iria afirmar que tem devoções especiais por santos, numa espécie de negação suave do monotaísmo (relembrando os cultos politeístas presentes até às civilizações clássicas), e por Maria,  mãe de Jesus (só não sabem que o seu culto deriva do paganismo e de uma primitiva religião matriarcal). 
A maioria, quando fala de Deus, vê no seu raciocínio a imagem de Jesus (teologicamente, seu filho, à nossa imagem e semelhança), negando suavemente o monoteísmo, pela segunda vez, por falta de crença na essência intangível que visam adorar (como consta no primeiro mandamento). 
Outra lacuna tem lugar relativamente ao conceito de espírito santo (que leva à falta de capacidade, aparente, de explicação teológica da questão da "santíssima trindade", dando azo a inúmeras questões que o ocultismo fez questão de aprofundar). A generalidade das pessoas, além de não conseguir perceber o conceito, não acredita nessa 'energia espiritual', que existe em todos. Afinal, na eucaristia, diz-se que "ele está no meio de nós". E volta-se a dizer, no credo, que é o "senhor que dá vida". As pessoas não equacionam que essa 'vida' é apenas uma forma de criatividade. Não percebem que o dar "vida", aqui, - o fazer nascer - pode referir-se a uma obra intelectual e não apenas à geração de uma vida humana (afinal, já dizia Pessoa,"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"). Não é por nada que, antigamente, as agora "ciências sociais e humanas" eram apelidadas de "ciências do espírito". E esse culto do espírito e da sua evolução é conhecida desde as civilizações mais antigas, ainda que simbolizado pela adoração da serpente (v.g., na civilização Inca), ou, astrologicamente, relacionado com o culto do Sol, regente do signo de Leão, que governa os assuntos da casa V, de entre os quais se ressalta a criatividade. É ainda curioso que nos estudos simbólicos que envolvem a 'velha arte alquímica', que recorria a símbolos, o símbolo do ouro fosse o mesmo do que o símbolo astrológico do sol. Certamente os velhos alquimistas estavam empenhados na obtenção da elevação espiritual, que permitiria a eternidade, simbolizada pelo ouro. 
E, depois disto, ainda há mais uma negação: a da vida depois da morte, a da existência de um ciclo de reencarnações (à semelhança daquilo que propagam os budistas). Muito embora o credo seja unívoco e explícito, no seu elemento literal, quando diz "creio na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há-de vir", os crentes falaciosos desacreditam-na com um sorriso irónico, apologistas de uma ciência (aparente, porque não a conseguem acompanhar na sua total complexidade evolutiva), erigida a argumento insusceptível de impugnação: uma verdadeira cláusula geral concessiva de 'razão'. Falam como se essa ciência fosse Deus e como se essa visão doentia não tivesse sido destroçada com a queda do cientismo de Comnte. Preferem ridicularizar a crença, catalogá-la como impossibilidade, como devaneio ou quase loucura - algo proferido por alguém que não sabe nada de nada. Até porque, esses, normalmente sabem tudo acerca de tudo, com a profunda exactidão que a tal ciência, exclusivamente baseada num experimentalismo empírico, confere. 
Enfim. Até poderia considerar isso mais simbólico ou mais difícil de vislumbrar para a maioria das pessoas, que tem uma escassa 'educação para pensar', ainda que a memória lhes permita dizer sem saber. Contudo (e não obstante o supra mencionado), o que me choca mais no catolicismo é a falta de amor daqueles que se dizem 'praticantes'; a sua de falta de solidariedade; de querer melhorar nesse sentido (em um nível interior e exterior); a falta de vontade em colocar o egoísmo um pouco de lado. 
O amor, a solidariedade e o espírito de partilha constituíram as marcas inovadoras daquela religião, nos recônditos da sua origem. Foram essas ideias que levaram muita gente a abandonar outros cultos, outras crenças. Hoje, com tudo deturpado (por falta de literacia - apesar de estarmos na era da informação fácil -, questionamento e difusão da verdade subjacente à complexidade das palavras), a igreja católica está a desagregar-se, como estrutura, devido a um formalismo que, durante muitos séculos, esqueceu a sua substância, ou melhor, preferiu torná-la oculta em complexidades susceptíveis de um controlo de massas. Vendeu-se ao poder que a hierarquização lhe proporcionou: material e, consequentemente, de propagação de falsos moralismos de teleologia inexistente, de forma a controlar as pessoas pelo medo do pecado e do inferno, como se Deus fosse um julgador implacável e estivesse, tal qual Maat, com a balança à espera para fazer justiça. E o medo trouxe a involução das pessoas, o contentamento social excessivo, a falta de afirmação pessoal, levando à submissão geral em prol da palavra. 
As pessoas obstaram ao pensamento. Esqueceram-se da imperfeição da palavra e, sempre por medo, deixaram-se vencer, primeiro, por eles próprios e, depois, pelos outros. Perderam a noção do bem e do mal sem recurso a ensinamentos extrínsecos a si. Deixaram de saber, de conhecer. Passaram a acreditar em Deus como um 'ópio' para o tempo e para as vicissitudes que a vida vai impondo. Acreditavam (e continuam a acreditar) em algo que dizem como mero mecanismo de decoração. Mas não acreditam em si mesmos, não acreditam no principal - o amor -, naquilo que nos liga. Dizem que é apenas para os poetas e para os loucos. Submergem, actualmente, a solidariedade no hiper-individualismo mas querem ser felizes. Irónico, não é?

E eu (depois disto, socialmente 'condenada' por heresia) considero-me mais crente em Deus que muitos seres que se dizem ultra praticantes. O amor é universal. E, como monoteísta que sou, "creio em um só Deus", que é de todos. Um Deus universal, que está em tudo e todos, que tudo cria. Um Deus que nos impõe um rumo a percorrer desde o nascimento, ainda que susceptível de alteração (aquando da obtenção de uma máxima elevação). Um Deus nos conecta uns aos outros de forma matematicamente perfeita. Um Deus imaterial, que é o "espírito santo" (dos cristãos), o Sol ,de uns, e a serpente, de outros.Um 'Deus' que pode evoluir e atingir o ouro dos alquimistas, deixando o chumbo por intermédio do fogo, que é a energia criativa. Haja conhecimento e arte para nos anestesiar de uma sociedade embrutecida, envolta na densidade de espíritos dormentes. Para compreendê-lo basta não nos perdermos demasiado em filosofias excessivamente 'empiristas' e irmos estudar o dualismo cartesiano ou o racionalismo de Spinoza. E esse Deus (ou essência que tudo ordena) é formado pelas centelhas divinas que habitam tudo e todos, sendo que, há medida que uma e outra se aproximam ou há medida que vamos ampliando a nossa consciência, vamos sendo capazes de perceber a sua lógica de actuação através de símbolos, de sincronicidades ou de 'pequenos nadas' com que o universo nos vai presenteando.
Em termos sociais, parece-que que a sociedade mundializada actual (ainda que fique muito em débito para com a 'ideal' homogeneidade) deixou de ser vencida pelo medo para se tornar numa selva competitiva de egos que, lamentavelmente, se acham deuses em sentido muito diverso do proferido. Uma sociedade deixada à anomia (revivendo, actualmente, notas da tese de Durkheim), terá de rumar, necessariamente, no sentido do universalismo. 
Em termos individuais, o caminho é longo e sinuoso. Será necessário morrer e renascer, em termos psíquicos. Vencermo-nos a nós mesmos. E as tendências inatas, que fazem parte do que somos, são muito fortes, fazendo com que aquelas conexões matematicamente perfeitas de que vos falei acima raramente falhem. E as leis naturais que governam a matéria não serão as mesmas que governam o plano intangível (vejam-se as contradições existentes entre a física clássica e a mais recente física quântica). E o caminho, ainda que ocultado na perfeição dos símbolos, está presente nas civilizações humanas, desde sempre - é universal.

*A imagem abaixo refere-se à correspondência entre essa evolução espiritual, simbolizada pelo caduceu de Hermes, e a Árvore da Vida, estudada pelo misticismo Judaico. Por sinal, era a árvore que estava no meio do jardim do Éden (ao lado da árvore que permitia o conhecimento do bem e do mal, da qual Eva comeu o fruto proibido), e o seu fruto prometia a eternidade. 

Maria Vaz