quarta-feira, 25 de março de 2015

O optimismo e a espontaneidade deveriam ser uma espécie de oxigénio. Mas quem quiser ser pessimista que esteja à vontade.  
Há dias em que a razão cansa: torna-se inútil, até. E todas as filosofias do mundo parecem pecar pela desnecessidade. Mas os que forem felizes em fazê-lo, que também estejam à vontade.
O mundo é simples: vivemos sob o império da vontade. O problema é que nem todos têm o mesmo nível de liberdade, sem reducionismos na significância da palavra. Nem de liberdade nem de consciência. Mas deixemos isso para outro dia. Hoje a filosofia soa a problematização desnecessária. E o sol brilha lá fora. ;) 





terça-feira, 24 de março de 2015

Andamos por aí e, do nada, tropeçamos no sonho. É obvio que cada sonho pode ser percebido como pesadelo. A eterna questão é: como queremos que seja?

Os idealistas colorem o mundo com base num onirismo em que a realidade sucumbe. Os realistas conformam-se com um mundo funcionalisticamente injusto e incolor. Uns quantos inrotuláveis ficam confusos na alternância entre um mundo a cores e outro a preto e branco. 

Ninguém tem a certeza de nada: uns criam e mudam as coisas, os outros mantêm-nas; uns arriscam, outros jogam pelo seguro. Coitados destes últimos: não perceberão que o jogo em excesso, mais do que perda de vida, leva ao fracasso da percepção de que o que acontece no mundo não depende de uma única mão que lança dados... e que o destino não é mais do que um campo heterogéneo em que conflituam vontades desvendadas e recalcadas??!

Os idealistas, impregnados de uma beleza que vem de dentro, são traídos pela sua própria boa energia e pela sua vontade de construir um mundo cor-de-rosa para todos. Ironicamente, aprendem a desenvolver a consciência ao mesmo tempo que percebem que, ainda que estruturas desabem, o mundo continuará sempre a ter o mesmo reflexo cor-de-rosa.
São estes que me fazem refletir se KANT não se encontraria perto da verdade quando defendeu a sua subjectividade... e que me fazem, a contrário senso, pensar se a verdade existe mesmo. Não será a verdade uma idealização perdida numa hipotética absolutização conceitual?





segunda-feira, 16 de março de 2015

O mundo celebra, a 8 de Março de cada ano, o dia internacional da mulher.
Celebra-se um género, uma condição, uma emancipação que - com a leveza do passar dos séculos - abandonara a fatídica submissão relativamente ao cromossoma y.
Não sou feminista, não defendo uma igualdade absoluta ou formal entre géneros... mas tenho aversão ao preconceito social de matriz machista que, por conservadorismo, erige tudo que mexa com sensorialismos sexuais à esfera do tabu ou do antimoralismo. 
Resumindo: pode haver beleza e elegância sem objectivizações standardizadas daquilo que é um corpo 'sócio-sexualmente' desejável. E, normalmente, há mais do que isso. Mais do que qualquer aparência mais ou menos (subjetivamente) apetecível. Então, meninas, não se reduzam! Talvez assim, com base em 'pequenos nadas', a sociedade mude e o mundo (tão freudiano) se torne menos hipócrita!



quinta-feira, 5 de março de 2015

Exalação de liberdade.
Pedaço de mistério
onde se avulta a teimosia
e a contrariedade de ser.
Fome de novas sensações,
num empirismo que se expande
e a paradoxal insatisfação na busca
de um ideal que nunca chega.
Sede de aventura
em contradição com uma certeza viciada.
Sorriso iluminado pela espontaneidade
numa escuridão de normalidades tediantes.
Pensamento que se encontra e se perde
para viver na aparência de algum dia se ter encontrado.
Uma brisa calorosa que o destino
me concedeu por um momento.



quarta-feira, 4 de março de 2015

Tudo começa na frase: "knowledge is power" ("Ipsa scientia potestas est"). O problema é que há quem, perdendo-se em relativismos racionais, reduza a significância generalista de 'conhecer'. 

O plano do 'saber' não necessita de concretizações: encontra-nos no plano etéreo onde se formam as ideias; um plano além das aparências ou formas, que dão azo à identificação. Todavia, 'conhecer' implica o usufruto ou contemplação de uma qualquer concreticidade materializável. Não dispensa o empirismo. Quando estas duas capacidades se cruzam nasce um inesgotável potencial mental. E, na verdade, o saber acaba por se alimentar de uma contínua satisfação do conhecimento que, consequentemente, só nasce da busca insaciável pelo desconhecido. 

Não obstante, na minha opinião (feliz e livremente subjectiva), a beleza está na raridade do encontro daquela união desprendida, que se permite "ser sem restrições", com uma metodologia prática (do conhecer) que não descura a teoria (do saber), vivendo com aversão a calculismos. 
Só uma pessoa com elevado grau interior de liberdade vive o espírito frenético de atracção pelo desconhecido sem o medo de fracassar que carregam os que não conseguem abdicar de 'tácticas de actuação' para obtenção de um qualquer objectivo. 

Só aqueles que amam verdadeiramente a liberdade se alimentam do absoluto: são essas raridades -  pessoas positivamente loucas - que me dão esperança na ponderação valorativa da vida.


 

segunda-feira, 2 de março de 2015

 Não consigo deixar a abstração, própria de quem sabe o que quer dizer mas prefere guardá-lo num canto inviolável da alma. E a fertilidade do silêncio leva-nos, tantas e tantas vezes, a percepções que tocam o cliché da intraduzibilidade em palavras. 
Um dia destes li um pouco de Machado de Assis, que dizia: "gosto que me adivinhem". Identifiquei-me. Gostei unicamente por isso: olhem a inarredável presença e influência do ego naquilo que amamos. Distraímo-nos e, em pequenas coisas, lá está ele com um olhar analítico e gritante de uma qualidade ou defeito que, com base na analogia, identificamos no outro. Não é isto narcisismo?! Mas deixemo-nos disso: voltemos à abstração e ao gosto pela percepção inteligente, que abre portas à adivinhação de um estado de alma. 
O pensamento abstrato aplicado à vida gera tantos problemas interpretativos quanto as interpretações jurídicas: acaba sempre por haver quem, de uma palavra, tenha a confiança excessiva (tantas vezes ridícula) da interpretação extensiva e, pelo contrário, aqueles que, na ausência de uma certeza fonética, ficam convictos de que 'ali' não impera mais do que uma interpretação ab-rogatória (por excesso de humildade ou, tão somente, por 'deficit' de confiança). E no meio desta selva caótica em que se traduz um encontro de psiques em clima de socialização, raros são os que conseguem apagar o ego próprio para perceber com veracidade o que está dentro daquelas almas unidas pelas circunstâncias. 
E o problema é sempre a analogia: só uma alma complexa teria a capacidade de adivinhar uma semelhante, numa intensidade que só compreende quem é 'elitista' na partilha. 
Adianto, ainda, que o silêncio (onde tantos 'marinheiros' se perdem em tentativas) não constitui uma ausência de percepção. Pelo contrário. Poderia traduzi-lo em momentos maximizadores de consciência (que ficam tão aquém de presunções de ignorância). 
Além desse reino, que toca o verosímil, há a necessidade de fuga de uma realidade crua e a utopia de quem sonha sempre com o melhor: uma utopia com que, tantas e tantas vezes, me cruzo (e me perco). E repetidas vezes caio, aí, no ridículo da interpretação extensiva de uma beleza anímica que vem de dentro, desprendida da absolutização do reino das formas corporais (que ligam as pessoas unicamente pela circunstância ou voluptuosidade do momento). Sou assim...e, identificando-me com Jorge de Sena, "não hei-de ter emenda".
Reflexivamente: não há uma alma complexa sem um qualquer paradoxo. Há uma parte de mim que ama a verdade e a percepção inteligente que subjaz as palavras. Há uma outra que se alegra e se expande na rebeldia de ser, na aventura de conhecer, na aversão ao tédio existencial, na fome de um conhecimento, na alegria da partilha de bons momentos com amigos e conhecidos (e no conhecimento vicioso de desconhecidos que, tantas vezes, viraram conhecidos e por quem vou guardando carinho). Há uma parte de mim ambiciosa: ávida de todo o tipo de conhecimento. Talvez venha daí a insatisfação crónica e a necessidade (sempre rebelde) de superar o que sou. 
Como dizia recentemente a um amigo: "sou uma descrente que acredita" e "há uma parte de mim que quer colorir o mundo".